Licenças de R$ 100 mil e ex-estrelas: o escândalo que chegou à CBF

 

Licenças de R$ 100 mil: entenda o caso que chegou à CBF

Uma licença de treinador que prometia abrir portas no futebol internacional teria sido oferecida por cerca de R$ 100 mil. O documento era atribuído a uma entidade argentina, dispensaria etapas tradicionais de formação e chegou às mãos de ex-jogadores conhecidos no Brasil e no exterior.

O caso ganhou outra dimensão quando Diego Souza, técnico do Joinville, teve seu registro cancelado pela CBF após a autenticidade de sua licença ser questionada. A entidade brasileira também iniciou uma verificação de outros registros que utilizavam documentos argentinos.

Entre os nomes citados nas reportagens sobre o caso estão Thiago Silva, Felipe Melo, Roberto Carlos, Diego Lugano, Alex de Souza, Petkovic e Luiz Gustavo. A presença desses nomes na investigação, porém, não significa que todos tenham agido com conhecimento de uma eventual fraude. Alguns afirmaram acreditar que os documentos eram legítimos.

A história ficou ainda mais complexa porque uma investigação policial anterior na Argentina foi encerrada em dezembro de 2025 por ausência de delito. Esse procedimento, entretanto, tinha outro foco e não chegou a investigar Alejandro Mancuso. (Poder360, ge, UOL)

Como funcionaria o esquema de licenças de R$ 100 mil

Segundo as reportagens que revelaram o caso, o argentino Alejandro Mancuso teria oferecido a ex-jogadores brasileiros um caminho acelerado para obter certificados atribuídos à Associação de Técnicos de Futebol da Argentina, conhecida como ATFA.

O pacote incluiria quatro níveis de formação: PRO, A, B e C. A licença PRO seria voltada ao trabalho profissional, enquanto os outros certificados estariam relacionados a diferentes níveis de atuação e formação de treinadores.

A oferta teria um preço aproximado de R$ 100 mil, com promessa de agilizar a obtenção dos documentos sem cumprir todas as etapas do curso regular. Os certificados seriam enviados aos compradores depois da negociação.

A suspeita é que a proposta explorasse o interesse de atletas em preparar a transição para a carreira de treinador, especialmente daqueles que desejavam trabalhar fora do Brasil.

A ATFA, no entanto, afirmou que os documentos apresentados por Mancuso não eram reconhecidos pela entidade e negou que ele tivesse autorização para representá-la. (Poder360, CartaCapital)

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Os nomes conhecidos que apareceram no caso

A lista divulgada pelas reportagens reúne ex-jogadores de diferentes gerações, com passagens por grandes clubes e seleções nacionais.

Entre os nomes mencionados estão:

  • Thiago Silva: ex-zagueiro da Seleção Brasileira e de clubes europeus.
  • Felipe Melo: ex-volante com passagens por Palmeiras, Flamengo e Galatasaray.
  • Roberto Carlos: ex-lateral da Seleção Brasileira e do Real Madrid.
  • Alex de Souza: ex-meia e treinador, conhecido por suas passagens por Palmeiras, Cruzeiro e Fenerbahçe.
  • Diego Lugano: ex-zagueiro uruguaio que atuou no São Paulo.
  • Petkovic: ex-meia sérvio que marcou época no Flamengo.
  • Luiz Gustavo: volante com passagem pela Seleção Brasileira e por clubes europeus.

A inclusão desses nomes nas reportagens está relacionada à aquisição ou ao recebimento de certificados atribuídos à ATFA. Isso não permite concluir, por si só, que todos sabiam que os documentos poderiam ser irregulares.

Alex de Souza, por exemplo, declarou que acreditava que o certificado era válido e que não chegou a utilizá-lo. Outros envolvidos também apresentaram versões sobre como receberam a documentação e o que entendiam estar comprando. (UOL, CartaCapital)

Por que a licença de Diego Souza virou o caso mais urgente

O episódio deixou de ser apenas uma discussão sobre certificados quando chegou ao registro de um treinador em atividade.

Diego Souza recebeu a documentação em 2023, quando ainda era jogador do Grêmio. Segundo seu relato, Mancuso se apresentou como alguém ligado internacionalmente à ATFA e ofereceu uma licença que permitiria continuar no futebol depois da aposentadoria.

Em agosto de 2026, Diego assumiu o Joinville e teve seu nome registrado no Boletim Informativo Diário da CBF, o BID. A inscrição autorizava seu trabalho como treinador.

Após a autenticidade do documento ser questionada, a CBF cancelou o registro em 8 de outubro e encaminhou o caso à Comissão de Ética e à Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD).

Diego afirmou que acreditava na legitimidade da licença e que pretende buscar responsabilização de quem considera responsável pela situação. O cancelamento administrativo, por si só, não representa uma condenação por falsificação. (ge)

A entidade argentina nega ter emitido os certificados

A ATFA é peça central para entender o caso.

A associação informou que não reconhece as licenças questionadas e afirmou que Mancuso não tinha autorização para representá-la. A entidade também declarou que Diego Souza não possuía licença homologada pela Conmebol, requisito necessário para o reconhecimento de uma licença estrangeira no processo de registro brasileiro.

Mancuso nega ter vendido certificados falsos. Sua versão é que teria facilitado contatos e orientado jogadores sobre a obtenção dos documentos.

As versões são incompatíveis em pontos fundamentais: de um lado, a entidade afirma não reconhecer os certificados; de outro, Mancuso contesta a acusação de venda de diplomas falsos.

É justamente por isso que a apuração precisa estabelecer como os documentos foram produzidos, quais procedimentos foram realizados e se houve intenção de enganar os compradores.

A investigação argentina foi arquivada — mas o que isso significa?

Uma das informações mais importantes da atualização é o encerramento de uma investigação policial anterior na Argentina.

Em julho de 2025, a sede da ATFA foi alvo de busca e apreensão em um procedimento que apurava possíveis irregularidades na emissão de certificados. O inquérito foi encerrado em dezembro daquele ano, segundo informações obtidas pela imprensa argentina, por ausência de delito.

O procedimento tinha como foco seis licenças e a atuação de um dirigente técnico da entidade. Alejandro Mancuso não foi investigado naquele inquérito nem teve seu nome analisado nele, de acordo com a reportagem sobre o encerramento do caso.

Portanto, o arquivamento não equivale a uma confirmação de que os certificados atribuídos a Mancuso eram legítimos. Significa que aquela investigação específica terminou sem provas suficientes para caracterizar um crime.

A apuração atual tem outro foco: as denúncias sobre a intermediação de certificados e o uso de documentos questionados por profissionais brasileiros. (UOL)

Por que a CBF começou a verificar outros treinadores

A situação de Diego Souza também levantou dúvidas sobre os procedimentos de registro.

A CBF iniciou um levantamento para identificar treinadores brasileiros que apresentaram licenças argentinas e pediu à Conmebol ajuda para verificar a autenticidade dos documentos.

Até a atualização divulgada em 8 de outubro, dois registros com licenças argentinas haviam sido identificados: o de Diego Souza e o de um profissional ligado às categorias de base do São Paulo. Segundo a apuração publicada, a documentação do segundo treinador foi considerada verdadeira.

A CBF também ressaltou que os clubes são responsáveis por garantir a veracidade dos documentos enviados para registro, conforme seu regulamento.

Isso significa que o caso pode gerar consequências não apenas para os envolvidos na negociação dos certificados, mas também para a revisão dos procedimentos utilizados para conferir a formação de treinadores.

Ainda não há confirmação de que outros técnicos terão seus registros cancelados.

O que falta esclarecer

O escândalo reúne perguntas que ainda precisam de respostas:

  • Quem produziu os certificados questionados?
  • Houve pagamento em todos os casos e quais foram as condições oferecidas?
  • Os compradores acreditavam que estavam recebendo documentos legítimos?
  • Como as licenças foram verificadas antes de serem apresentadas para registro?
  • A investigação atual identificará outros documentos irregulares?

Essas respostas são essenciais para separar eventuais vítimas de uma fraude de pessoas que possam ter responsabilidade pela obtenção ou utilização consciente de documentos inválidos.

Também serão importantes para esclarecer se houve falha de fiscalização e quais mudanças poderão ser adotadas pela CBF e pelas entidades envolvidas.

Um caso que pode mudar a fiscalização dos treinadores

O episódio começou com uma promessa de facilitar a entrada de ex-jogadores na carreira de treinador. Agora, envolve certificados de alto valor, nomes conhecidos do futebol e uma investigação que atravessa fronteiras.

A CBF já cancelou o registro de Diego Souza e encaminhou o caso aos seus órgãos de apuração. A ATFA nega reconhecer os documentos questionados, enquanto Mancuso contesta as acusações.

Ao mesmo tempo, o arquivamento da investigação argentina anterior mostra por que é necessário distinguir procedimentos diferentes e não antecipar conclusões.

O ponto central não é apenas quem recebeu uma licença de R$ 100 mil, mas como esses documentos foram obtidos, quem tinha autoridade para emiti-los e por que chegaram a ser apresentados como válidos.

É essa sequência que poderá determinar o tamanho real do escândalo — e se o caso ficará restrito a certificados específicos ou levará a mudanças mais amplas na fiscalização da formação de treinadores.

Bruno Santana

Formado em Análise e Desenvolvimento de sistemas , mas apaixonado por futebol e escritos nas horas vagas

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