Uma licença de treinador aparentemente regular entrou no sistema da CBF, autorizou um ex-jogador a comandar um clube profissional e, semanas depois, acabou cancelada.
O documento vinha da Argentina.
O nome envolvido era conhecido no futebol brasileiro.
E o problema ficou ainda maior quando a CBF decidiu investigar se outros profissionais poderiam ter utilizado documentos semelhantes.
É assim que o caso de Diego Souza, atual técnico do Joinville, deixou de ser apenas uma história sobre a transição de um ex-jogador para a carreira de treinador e passou a levantar uma pergunta muito mais incômoda: como uma licença que a entidade argentina diz não reconhecer conseguiu chegar ao BID da CBF?
Tudo começou com uma promessa de caminho mais fácil
Diego Souza recebeu a licença em 2023, quando ainda era jogador do Grêmio.
Segundo o próprio ex-atacante, o contato aconteceu por meio do argentino Alejandro Mancuso, ex-jogador de Flamengo e Palmeiras e que também foi auxiliar de Diego Maradona na seleção argentina.
Mancuso teria se apresentado como alguém ligado internacionalmente à Associação de Técnicos de Futebol da Argentina, a ATFA, e oferecido uma maneira mais simples de obter licenças para jogadores conhecidos que pretendiam seguir no futebol depois da aposentadoria.
Diego acreditou.
Ele afirmou que procurou informações com outros jogadores que também haviam recebido documentos por meio de Mancuso e, diante da reputação do argentino, entendeu que estava diante de uma oportunidade legítima.
Naquele momento, porém, Diego sequer tinha decidido se seria treinador.
A licença era vista mais como uma possibilidade para o futuro.
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O documento parecia suficiente para uma nova carreira
A mudança aconteceu três anos depois.
Em agosto de 2026, Diego Souza assumiu o comando do Joinville para iniciar sua primeira experiência como treinador.
O registro apareceu no BID da CBF, com autorização para trabalhar a partir de 27 de agosto.
Poucos dias depois, em 30 de agosto, ele comandou o Joinville pela primeira vez, na derrota por 4 a 2 para o Marcílio Dias pela Copa Santa Catarina.
Até então, tudo parecia fazer parte de uma história normal de transição de carreira.
Um ex-jogador famoso iniciando uma nova etapa.
Só que a licença usada para permitir o registro começou a ser questionada.
A Argentina diz que o nome não estava nos registros
O ponto decisivo da história apareceu quando a documentação foi confrontada com a entidade argentina.
A ATFA informou que Diego Souza não possuía uma licença homologada pela Conmebol.
Isso é importante porque uma licença obtida em outro país precisa seguir procedimentos específicos para ser reconhecida e utilizada no registro de um treinador no Brasil.
A CBF então cancelou o registro de Diego no BID nesta quinta-feira, 8 de outubro.
O caso também foi encaminhado para a Comissão de Ética da CBF e para a Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD), que deverão analisar responsabilidades.
Diego diz que foi enganado
É aqui que a história precisa ser tratada com cuidado.
O cancelamento do registro não significa que Diego Souza tenha sido condenado por falsificação.
O ex-jogador afirma justamente o contrário: que acreditava estar recebendo uma licença verdadeira.
Depois da repercussão, Diego disse estar profundamente decepcionado e afirmou que jamais teria interesse em falsificar documentos.
Segundo sua versão, ele confiou em Mancuso justamente porque o argentino tinha uma carreira conhecida no futebol e dizia possuir acesso privilegiado às licenças.
Diego também afirmou que fará o necessário para regularizar sua situação e responsabilizar quem eventualmente tenha provocado o problema.
Essa diferença é fundamental.
Uma coisa é ter utilizado um documento irregular. Outra é ter consciência de que ele era falso.
A investigação terá justamente entre seus objetivos esclarecer responsabilidades.
E quem é Alejandro Mancuso?
Mancuso é uma das peças mais importantes dessa história.
Ex-jogador argentino, ele atuou no Brasil por Flamengo e Palmeiras e ganhou ainda mais notoriedade por ter trabalhado como auxiliar de Diego Maradona na seleção argentina durante a Copa do Mundo de 2010.
Segundo a investigação que veio a público, Mancuso teria oferecido a ex-jogadores brasileiros um caminho acelerado para conseguir licenças de treinador da ATFA.
A proposta envolveria documentos dos níveis PRO, A, B e C, sem que os interessados precisassem necessariamente cumprir todo o processo tradicional de formação.
A própria ATFA, entretanto, afirmou que Mancuso não integra a direção da entidade, não ocupa cargo de autoridade e não possui autorização para representá-la.
A associação também declarou que documentos enviados por ele em seu nome não são reconhecidos pela instituição.
Mancuso, por sua vez, nega ter vendido diplomas falsos e afirma que apenas teria facilitado contatos entre jogadores e a entidade.
O caso ficou maior que Diego Souza
Foi justamente aqui que a CBF decidiu ampliar o olhar.
Depois da denúncia, a entidade iniciou um levantamento para identificar treinadores brasileiros que apresentaram licenças argentinas como parte da documentação necessária para seus registros.
A CBF também pediu à Conmebol que ajude a verificar a autenticidade dos documentos.
O resultado inicial é curioso: foram identificados apenas dois registros com licença argentina.
Um deles era o de Diego Souza.
O outro pertence a um profissional ligado às categorias de base do São Paulo, mas, neste caso, a documentação foi considerada verdadeira.
Ou seja, até o momento, Diego é o único caso identificado pela CBF como irregular dentro desse levantamento.
Isso muda um pouco a dimensão da história.
Não existe, até agora, uma lista confirmada de vários treinadores brasileiros prestes a perder suas licenças.
Existe uma investigação aberta e uma entidade tentando descobrir se o problema foi isolado ou se existem outros documentos que precisam ser verificados.
Como uma licença chegou ao BID?
Talvez essa seja a pergunta mais importante de toda a história.
A CBF afirma que o regulamento estabelece que os clubes são responsáveis por assegurar a veracidade dos documentos apresentados no processo de registro.
No caso de Diego Souza, o Joinville não conseguiu detalhar como exatamente a documentação foi feita para chegar ao registro.
O episódio revela, portanto, uma vulnerabilidade no processo.
Um documento apresentado como uma licença profissional estrangeira passou pelas etapas necessárias para que Diego fosse registrado como treinador e só posteriormente teve sua autenticidade questionada.
É justamente esse tipo de brecha que a CBF agora tenta fechar.
O futebol brasileiro pode descobrir outros casos?
Essa é a parte que ainda não tem resposta.
A CBF está fazendo o pente-fino e pediu apoio da Conmebol para conferir as licenças.
Por enquanto, não há confirmação de uma nova onda de cancelamentos.
Mas a investigação pode produzir novos capítulos caso apareçam outros documentos vinculados ao mesmo esquema.
E esse é o motivo pelo qual o caso merece atenção.
O problema não está apenas na licença de um treinador.
Está no caminho percorrido por um documento estrangeiro até chegar ao sistema oficial brasileiro.
O curioso destino de Diego Souza
A história também tem uma ironia.
Diego Souza encerrou uma longa carreira como jogador e decidiu permanecer no futebol por outro caminho.
O ex-atacante, que passou por clubes como Grêmio, Vasco, Palmeiras, Flamengo, Botafogo, São Paulo, Atlético-MG e Sport, recebeu uma oportunidade para começar justamente no momento em que a documentação de sua nova profissão virou problema.
Ele chegou ao Joinville com um contrato curto e uma oportunidade de provar que poderia fazer no banco aquilo que fez durante tantos anos dentro de campo.
Agora, antes mesmo de conseguir construir sua carreira de treinador, precisa resolver uma questão burocrática que não esperava enfrentar.
A história está apenas começando
O caso Diego Souza ainda não tem uma conclusão.
A CBF cancelou seu registro e encaminhou o episódio para seus órgãos de apuração. A Conmebol foi acionada para ajudar na verificação das licenças argentinas. E a entidade brasileira começou a conferir outros registros.
Diego afirma que não sabia que o documento era irregular.
A ATFA diz que não reconhece a licença.
Mancuso nega ter vendido diplomas falsos.
E a CBF agora precisa descobrir onde exatamente o processo falhou.
Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja “Diego Souza usou uma licença falsa?”.
A pergunta é outra:
como uma licença que a entidade responsável diz não reconhecer conseguiu chegar ao sistema oficial da CBF e permitir que um treinador estreasse no futebol profissional?
Essa resposta pode determinar se o caso de Diego Souza será apenas uma história estranha na transição de carreira de um ex-jogador ou o primeiro capítulo de uma investigação muito maior no futebol brasileiro.
