O Flamengo entrou oficialmente na disputa judicial contra a proibição das apostas esportivas no Brasil, mas o movimento vai muito além da presença da Betano na camisa.
Por trás da ação apresentada ao Supremo Tribunal Federal (STF) está uma preocupação financeira: o clube considera que a mudança pode comprometer receitas futuras justamente enquanto mantém compromissos elevados com contratações realizadas nesta temporada.
Um dos números ajuda a dimensionar o problema. O Flamengo ainda tem mais de R$ 191 milhões a pagar pela contratação de Lucas Paquetá, segundo o balanço financeiro do primeiro semestre de 2026.
Foi nesse contexto que o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, fez a pergunta que chamou atenção:
“Como vou pagar o Paquetá em janeiro?”
A declaração foi dada à Flamengo TV ao comentar o impacto da proibição das bets sobre o planejamento financeiro do clube.
Flamengo leva disputa das bets ao STF
O Flamengo apresentou uma petição no STF para participar como amicus curiae nas ações que questionam a Medida Provisória que proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no Brasil.
O caso está sob relatoria do ministro Luiz Fux, que já conduz processos relacionados ao marco regulatório das apostas.
O clube argumenta que a medida produz impactos relevantes sobre suas receitas e também sobre projetos esportivos que recebem recursos relacionados ao setor.
É importante destacar que a entrada do Flamengo no processo não significa que o clube tenha conseguido suspender a medida. A MP 1.394/2026 continua em tramitação no Congresso e estabeleceu a proibição das apostas de quota fixa no país.
Quanto o Flamengo pode perder sem a Betano?
O contrato com a Betano é um dos maiores acordos comerciais da história do clube.
O vínculo prevê R$ 250 milhões fixos por ano, enquanto o valor pode chegar a aproximadamente R$ 268 milhões anuais com metas. Levantamento anterior também apontou possibilidade de valores superiores dependendo das variáveis previstas no acordo.
Em 2026, os pagamentos previstos da Betano já foram realizados ao Flamengo, segundo informações divulgadas pelo clube e pela imprensa.
O problema está justamente no futuro.
A Medida Provisória criou um cenário de incerteza para contratos existentes, enquanto Flamengo e Betano decidiram manter a parceria em stand by até que haja uma definição sobre o ambiente jurídico.
Ou seja: o dinheiro já recebido em 2026 não significa que a receita dos próximos anos esteja garantida.
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E é aí que entra a dívida de Paquetá
A contratação de Lucas Paquetá foi uma das maiores operações financeiras da história do Flamengo.
O clube envolveu aproximadamente R$ 315 milhões na operação, considerando direitos, luvas e intermediação.
O pagamento, porém, foi parcelado.
No balanço do primeiro semestre, o Flamengo informou que ainda havia pouco mais de R$ 191 milhões a pagar referentes à contratação.
Por isso, a preocupação apresentada por Bap não está relacionada apenas ao valor do patrocínio.
A questão é o encontro entre receitas futuras e compromissos financeiros já assumidos.
Se uma parcela importante das receitas comerciais projetadas deixa de existir ou fica incerta, o clube precisa encontrar outras fontes para cumprir obrigações que continuam vencendo.
Flamengo também deve por outros reforços
Paquetá não é o único compromisso financeiro relevante.
O balanço do Flamengo também registra valores ainda a pagar por outros jogadores contratados recentemente.
Entre eles estão:
- Samuel Lino: R$ 121,5 milhões;
- Emerson Royal: R$ 47,18 milhões;
- Carrascal: R$ 36,7 milhões;
- Lucas Paquetá: mais de R$ 191 milhões ainda a pagar.
Os valores não significam necessariamente que todos serão pagos de uma única vez. São compromissos parcelados e distribuídos de acordo com os contratos de cada operação.
Mesmo assim, ajudam a mostrar por que a diretoria acompanha de perto o futuro das receitas comerciais.
O problema não é apenas a camisa
A possível perda de receitas relacionadas às bets também pode atingir outras áreas do futebol brasileiro.
O Flamengo alertou ao STF que a medida poderia provocar impactos sobre diferentes atividades esportivas e estimou perdas de até R$ 430 milhões para o próprio clube, considerando os efeitos mais amplos relacionados ao setor.
Além do patrocínio master, existem contratos envolvendo publicidade, competições, placas e outras propriedades comerciais ligadas às empresas de apostas.
A própria Brax, responsável por propriedades comerciais do futebol, já indicou dificuldades relacionadas ao contrato de aproximadamente R$ 63 milhões com o Flamengo.
Portanto, a discussão não se resume à pergunta sobre quem estará estampado na camisa.
Flamengo não quer trocar de patrocinador agora
Um detalhe chama atenção na estratégia adotada pelo clube.
Mesmo diante da incerteza, o Flamengo afirmou que não pretende procurar imediatamente outro patrocinador master.
A diretoria decidiu aguardar a definição do cenário jurídico antes de avançar em uma eventual substituição da Betano. Segundo Bap, o clube pode esperar meses por uma definição.
Essa escolha mostra o tamanho do contrato atual.
Substituir uma receita dessa magnitude não é simplesmente encontrar outra empresa para ocupar o espaço na camisa.
Seria necessário negociar um novo acordo em um mercado que também está sendo afetado pela mudança nas regras das apostas.
Quanto o Flamengo tinha previsto arrecadar em 2026?
O Flamengo projetava uma receita bruta de aproximadamente R$ 1,8 bilhão em 2026.
O orçamento considerava cerca de:
- R$ 538 milhões em receitas comerciais;
- R$ 504 milhões em matchday;
- R$ 265 milhões em direitos de televisão;
- R$ 256 milhões com venda de jogadores.
O problema é que a previsão de venda de jogadores ainda não havia alcançado o valor projetado.
Isso aumenta a importância de outras fontes de receita para equilibrar o orçamento.
O que acontece se a receita das bets desaparecer?
O Flamengo não necessariamente entraria em uma crise financeira imediata caso a Betano deixasse de pagar valores futuros.
O clube possui outras receitas e fechou 2025 com aproximadamente R$ 218 milhões em caixa, segundo os dados apresentados no balanço.
O problema seria o planejamento de médio prazo.
Uma receita anual de centenas de milhões permite ao clube projetar folha salarial, contratações, investimentos e pagamentos futuros.
Se essa fonte desaparece, o Flamengo precisa substituir o dinheiro por outra receita ou ajustar despesas.
E é exatamente essa preocupação que Bap colocou ao relacionar a situação das bets com os pagamentos de Paquetá.
O que está em jogo no STF?
A Medida Provisória 1.394/2026 proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa no território nacional. A norma também determina que, dez dias após sua publicação, os operadores devem indisponibilizar seus sites e aplicativos destinados às apostas.
A MP ainda está em tramitação no Congresso.
Paralelamente, associações do setor já ingressaram no STF questionando a medida. A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), por exemplo, apresentou a ADI 8027, enquanto outra entidade protocolou a ADI 8024.
É nesse cenário que o Flamengo tenta participar diretamente da discussão jurídica.
O clube não está sozinho, mas agora passou a defender seus próprios interesses dentro do processo.
A conta que preocupa o Flamengo
O ponto central da história pode ser resumido em três números:
R$ 268 milhões: valor anual que o contrato com a Betano pode alcançar.
R$ 191 milhões: valor que ainda faltava pagar pela contratação de Lucas Paquetá no balanço do primeiro semestre.
R$ 1,8 bilhão: receita bruta projetada pelo Flamengo para 2026.
Os números não significam que a perda da Betano automaticamente impediria o Flamengo de pagar Paquetá.
Mas mostram por que a discussão sobre as bets chegou diretamente ao planejamento do futebol.
O compromisso com o jogador continua existindo independentemente do destino do patrocínio.
O Flamengo agora espera uma definição
O Flamengo entrou no STF para defender seus interesses enquanto aguarda o desfecho da disputa sobre a MP que proibiu as apostas de quota fixa.
Até que exista uma decisão judicial ou legislativa que altere o cenário, o clube trabalha com uma receita comercial importante em situação de incerteza.
E a pergunta feita por Bap resume o tamanho do desafio:
“Como vou pagar o Paquetá em janeiro?”
A resposta não depende apenas do camisa 8.
Depende de como o Flamengo conseguirá preservar, substituir ou reorganizar receitas que foram consideradas importantes quando o clube assumiu compromissos milionários para montar o elenco de 2026.
