O Santos vive uma contradição que expõe um dos problemas financeiros mais difíceis de administrar no futebol: o clube tem dinheiro a receber por negociações de jogadores, mas também precisa resolver compromissos vencidos no exterior para voltar a registrar reforços sem restrições.
De acordo com informações divulgadas nesta quinta-feira (15), o Peixe tem cerca de R$ 25,5 milhões em parcelas atrasadas a receber de cinco clubes brasileiros. Ao mesmo tempo, enfrenta quatro transfer bans ativos impostos pela FIFA, relacionados a pendências financeiras que, segundo a reportagem, somam aproximadamente R$ 18 milhões.
A diferença entre os valores chama atenção: em tese, o montante cobrado dos clubes brasileiros supera o total estimado das dívidas internacionais que motivam as restrições. Mas isso não significa que o dinheiro esteja disponível no caixa santista ou que a liberação das contratações aconteça automaticamente.
Os valores precisam ser efetivamente recebidos, e cada processo internacional deve ser resolvido conforme suas condições. Enquanto isso, a diretoria precisa cobrar os devedores nacionais e negociar a regularização das próprias obrigações.
Botafogo lidera a lista de clubes com pagamentos pendentes
O Botafogo aparece como o principal devedor do Santos, com aproximadamente R$ 10,5 milhões em duas pendências: uma de R$ 7,5 milhões e outra de R$ 3,05 milhões.
Os atletas envolvidos não foram confirmados oficialmente na apuração divulgada, embora as negociações sejam associadas às transferências do goleiro John e do zagueiro Jair, realizadas em temporadas recentes. Por isso, a identificação dos jogadores deve ser tratada como uma indicação, não como confirmação definitiva.
Na sequência está o Vitória, com cerca de R$ 6 milhões em aberto. Parte da cobrança está relacionada à transferência do atacante Lucas Braga, negociado em fevereiro de 2025 por R$ 7,9 milhões, além de bônus. O acordo previa pagamento parcelado, mas houve atrasos em parcelas.
O Grêmio ocupa a terceira posição, com R$ 5,4 milhões pendentes. O valor está ligado à negociação do lateral-direito João Lucas, que deixou o Santos e foi para o clube gaúcho em dezembro de 2024.
A lista também inclui o Ceará, com R$ 2,6 milhões relacionados à compra de parte dos direitos econômicos do meio-campista Vinícius Zanocelo, e o Fluminense, com R$ 983 mil vinculados a parcelas de negociações recentes, como as envolvendo Soteldo e Nonato.
[VEJA TAMBÉM]
Caso que ameaça o Manchester City ganha novo prazo e pode ter decisão em 2027 Seedorf é o novo técnico do Corinthians; holandês assina até 2027 Ele saiu do Brasil sem jogar um Brasileirão, virou ídolo na Holanda e realizou um sonho antigo Santos cobra R$ 12,9 milhões por JP Chermont, e clube árabe pede prazo sem data para pagar
Quanto cada clube deve ao Santos
| Clube | Valor pendente aproximado |
|---|---|
| Botafogo | R$ 10,5 milhões |
| Vitória | R$ 6 milhões |
| Grêmio | R$ 5,4 milhões |
| Ceará | R$ 2,6 milhões |
| Fluminense | R$ 983 mil |
| Total | R$ 25,5 milhões |
Os valores são aproximados e correspondem às pendências divulgadas pela imprensa. A existência de parcelas em atraso não significa, por si só, que todos os casos tenham o mesmo estágio de cobrança ou estejam submetidos a uma decisão definitiva.
Santos já recorreu à CNRD para cobrar parte das dívidas
Diante do descumprimento dos prazos de pagamento, o Santos acionou a Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD), órgão ligado à estrutura da CBF que atua na solução de conflitos do futebol, para cobrar parte dos valores.
Em outros casos, o clube tenta uma saída negociada. Essa diferença é relevante porque cada transferência tem contrato, calendário de pagamentos e condições próprias. Uma cobrança pode estar em negociação, enquanto outra já avançou para um procedimento formal.
O objetivo da diretoria é transformar créditos registrados em dinheiro efetivamente recebido. Até que os depósitos sejam realizados, porém, o clube não pode contar integralmente com esses valores para cumprir despesas imediatas.
O Santos também informou, em nota oficial publicada em setembro, que possui valores relevantes a receber de outras equipes. Na ocasião, afirmou que seus créditos decorrentes de diferentes operações alcançavam aproximadamente R$ 170 milhões no início de 2026. Esse número mais amplo não deve ser confundido com os R$ 25,5 milhões em parcelas vencidas agora divulgados: são recortes diferentes, que incluem créditos com situações e prazos distintos.
Por que receber R$ 25,5 milhões não derruba automaticamente o transfer ban?
O transfer ban é uma restrição que impede o clube de registrar novos jogadores enquanto a sanção estiver em vigor. Ela pode decorrer de decisões envolvendo dívidas com outros clubes, atletas ou profissionais do futebol.
O Santos já enfrentou esse tipo de punição em episódios anteriores. Em 2024, por exemplo, o clube informou oficialmente que a restrição relacionada ao ex-técnico Fabián Bustos foi encerrada após o pagamento da dívida e o envio dos comprovantes à FIFA. Em outro caso daquele ano, a entidade também comunicou o encerramento de um processo após acordo com Lucas Ochandorena, auxiliar da comissão técnica de Bustos.
Esses episódios ajudam a entender a questão atual: ter créditos a receber de equipes brasileiras não substitui a necessidade de cumprir as obrigações que deram origem às sanções internacionais. Os processos são distintos, e o dinheiro precisa chegar ao clube antes de ser utilizado para quitar as pendências.
Além disso, o valor total de R$ 25,5 milhões não deve ser considerado integralmente livre para uso. A diretoria precisa avaliar os vencimentos, os compromissos já assumidos e a destinação de cada receita. Mesmo que os pagamentos entrem, a liberação de registros dependerá da regularização das dívidas correspondentes e da confirmação das medidas pela FIFA.
O que pode acontecer se o Santos recuperar o dinheiro?
Se os cinco clubes quitarem as parcelas em atraso, o Santos terá mais recursos para organizar o fluxo de caixa e negociar o pagamento das dívidas internacionais. Considerando apenas os valores divulgados, a diferença aritmética entre os R$ 25,5 milhões a receber e os R$ 18 milhões estimados em pendências na FIFA seria de aproximadamente R$ 7,5 milhões.
Essa conta, entretanto, é apenas uma comparação entre os montantes informados — não uma previsão de sobra financeira. Ela não considera eventuais juros, custos, outros compromissos do clube, diferenças entre datas de vencimento ou a disponibilidade real dos recursos.
O ponto decisivo será a velocidade com que o Santos conseguirá transformar as cobranças em pagamentos. Se os créditos demorarem a entrar, a diretoria continuará tendo de administrar as restrições internacionais e buscar alternativas para manter o planejamento esportivo.
Também será necessário acompanhar se os acordos com os devedores terão datas definidas e se as cobranças na CNRD avançarão. Sem prazos cumpridos, o clube corre o risco de continuar contabilizando valores a receber sem conseguir utilizá-los no momento em que mais precisa.
A contradição financeira que pressiona o planejamento do Peixe
O caso mostra que a saúde financeira de um clube não depende apenas do tamanho de suas receitas ou do valor de seus ativos. Também depende de quando o dinheiro entra e de quais obrigações precisam ser pagas primeiro.
O Santos negociou jogadores e tem créditos a cobrar, mas parte dos pagamentos previstos não chegou dentro do prazo. Paralelamente, as dívidas internacionais continuam produzindo consequências esportivas, especialmente pela restrição ao registro de reforços.
A prioridade agora é dupla: cobrar os clubes brasileiros e solucionar os processos que mantêm as sanções da FIFA. Os R$ 25,5 milhões representam uma oportunidade importante para aliviar a pressão financeira, mas não garantem, sozinhos, o fim dos bloqueios. O resultado dependerá de dinheiro efetivamente recebido, acordos cumpridos e regularização confirmada das pendências internacionais.
