Nem todo jogador precisa passar pelos grandes clubes do futebol brasileiro para construir uma carreira de destaque. Mauro Júnior é um exemplo de trajetória diferente: deixou o país aos 18 anos, ainda no início da carreira profissional, e encontrou no PSV Eindhoven o ambiente para crescer, mudar de posição, conquistar títulos e chegar à Seleção Brasileira principal.
Nascido em Palmital, no interior de São Paulo, em 6 de maio de 1999, Mauro foi formado pelo Desportivo Brasil. Antes de se tornar um dos jogadores brasileiros com mais partidas pelo PSV, disputou competições de base e teve uma passagem curta pelo futebol profissional no Brasil. Ele não chegou a disputar uma edição do Campeonato Brasileiro da Série A antes de se transferir para a Holanda.
A história ganhou um capítulo especial em setembro de 2026, quando Carlo Ancelotti convocou o lateral pela primeira vez para a Seleção principal. Para quem acompanhou sua trajetória desde a adolescência, a notícia foi a concretização de uma meta que parecia distante: representar o Brasil sem precisar deixar para trás a carreira que construiu na Europa.
Do Desportivo Brasil à oportunidade na Holanda
A formação de Mauro Júnior aconteceu longe dos holofotes dos principais clubes do país. No Desportivo Brasil, o jogador chamou atenção pela qualidade técnica e pela capacidade de atuar em diferentes funções. Ainda jovem, participou de torneios internacionais de base, experiências que o colocaram diante de adversários de grandes academias do futebol mundial.
Um dos momentos que ajudaram a projetar seu nome ocorreu na Weifang Cup, competição disputada na China. Em 2016, quando ainda defendia o Desportivo Brasil, Mauro teve boas atuações diante de equipes de expressão internacional, incluindo Real Madrid e Benfica. O desempenho contribuiu para fortalecer a percepção de que havia ali um jogador com potencial para dar um salto na carreira.
A oportunidade de sair do país apareceu em 2017. Aos 18 anos, Mauro assinou com o PSV Eindhoven, um dos clubes tradicionais dos Países Baixos. A mudança significou muito mais do que trocar de camisa: ele precisou se adaptar a outro idioma, outra cultura e uma realidade competitiva diferente daquela que conhecia no futebol brasileiro.
O começo não foi diretamente na equipe principal. Mauro passou também pelo Jong PSV, time de desenvolvimento do clube, enquanto buscava espaço entre os profissionais. Ainda em 2017, porém, teve sua primeira oportunidade no elenco principal. Ao final daquela temporada, já fazia parte de um grupo campeão do Campeonato Holandês.
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A transformação de um meio-campista em lateral
Um dos aspectos mais importantes da carreira de Mauro foi a mudança de função. Na formação, ele atuava principalmente no meio-campo e chegou a vestir a camisa 10 pelas seleções brasileiras de base. No PSV, a trajetória o levou a explorar posições diferentes, até encontrar na lateral uma função em que conseguiu aproveitar melhor suas características.
A adaptação não aconteceu de uma hora para outra. Jogar como lateral exige leitura defensiva, capacidade de recomposição, resistência para percorrer o corredor e participação na construção ofensiva. Mauro precisou aprender a equilibrar essas responsabilidades sem perder a qualidade técnica que já demonstrava quando atuava mais adiantado.
A experiência acabou ampliando seu repertório. O brasileiro passou a ser utilizado nas duas laterais e também em outras funções, dependendo das necessidades da equipe. Essa versatilidade se tornou uma das características valorizadas pelo treinador Peter Bosz, que o descreve como um jogador disposto a cumprir diferentes tarefas para o time.
A mudança de posição também ajuda a explicar por que a convocação não foi apenas uma recompensa por tempo de clube. Mauro precisou desenvolver novas competências e demonstrar regularidade em um futebol que exige intensidade, organização tática e participação constante dos laterais no ataque.
PSV: títulos, longevidade e respeito conquistado em campo
Enquanto muitos jogadores brasileiros passam rapidamente por clubes europeus, Mauro construiu uma relação duradoura com o PSV. O clube se tornou sua principal referência profissional e o lugar em que amadureceu como atleta.
Em fevereiro de 2025, o lateral chegou a 150 partidas pelo time principal, superando Romário no número de jogos pelo PSV e ficando atrás apenas de Gomes entre os brasileiros com mais atuações pelo clube naquele momento. A marca demonstrou a dimensão de sua permanência em Eindhoven e o espaço que conquistou ao longo dos anos.
Em setembro de 2026, o próprio PSV registrava mais de 200 partidas de Mauro pelo time principal, além de 31 assistências e dez gols na estatística divulgada naquele período. O lateral também passou a usar a braçadeira de capitão, sinal de sua importância dentro do elenco.
Os títulos de Mauro Júnior pelo PSV
A passagem pelo futebol holandês rendeu conquistas nacionais importantes. Entre os títulos confirmados na trajetória do brasileiro estão:
Campeonato Holandês: temporadas 2017/18, 2023/24, 2024/25 e 2025/26.
Copa dos Países Baixos: temporadas 2021/22 e 2022/23.
Supercopa dos Países Baixos: conquistas em diferentes temporadas, incluindo 2023 e 2025.
O conjunto de títulos mostra que Mauro não permaneceu no exterior apenas como uma promessa em desenvolvimento. Ele participou de campanhas vitoriosas e acompanhou diferentes fases do PSV, mantendo-se relevante mesmo com mudanças de treinadores, de posição e de composição do elenco.
A previsão de Diego Freestyle que voltou a circular nove anos depois
A convocação para a Seleção também resgatou uma história curiosa. Em 2017, Diego Oliveira de Castro, conhecido como Diego Freestyle e reconhecido por seu trabalho com futebol freestyle, gravou um vídeo no qual demonstrava confiança de que Mauro Júnior chegaria à equipe brasileira.
Diego havia conhecido o jogador durante o período de competições de base na China. A proximidade com jovens atletas permitiu que acompanhasse o potencial de Mauro antes de ele se firmar no futebol europeu. Quando Ancelotti anunciou a convocação, o vídeo voltou a circular nas redes sociais e ganhou nova repercussão.
A história chama atenção, mas o mérito da trajetória não está em uma previsão acertada. O que torna o episódio relevante é o contraste entre aquele jovem que ainda buscava espaço no futebol e o profissional que, anos depois, conseguiu chegar à Seleção principal.
Uma avaliação feita em 2017 não poderia garantir o que aconteceria quase uma década depois. Entre os dois momentos, houve uma longa sequência de treinos, partidas, adaptação a novas funções e decisões de carreira. A lembrança de Diego ganhou força justamente porque o caminho de Mauro confirmou, na prática, uma expectativa que havia sido expressa muito antes.
O sonho de defender o Brasil e a possibilidade de jogar pela Holanda
A longa permanência no futebol holandês também colocou Mauro diante de uma decisão importante. Em determinado momento, houve sondagens sobre a possibilidade de defender a seleção dos Países Baixos. O jogador, entretanto, manteve como prioridade o sonho de vestir a camisa brasileira.
Em entrevista à CBF, Mauro explicou o peso de representar o país em que cresceu e a importância de sua passagem pelas categorias de base. Entre 2013 e 2020, ele defendeu diferentes seleções juvenis brasileiras, incluindo as equipes sub-15, sub-17, sub-20 e sub-23. Foi campeão sul-americano sub-17 em 2015.
A convocação de 2026, portanto, não representou uma estreia absoluta com a camisa amarela, mas a chegada ao nível principal. Depois de anos de espera, o lateral passou a ter a oportunidade de mostrar seu trabalho a uma comissão técnica que o observou atuando no futebol europeu.
A escolha também evidencia uma particularidade de sua carreira: Mauro não precisou trocar de clube para tentar chamar a atenção da Seleção. O desempenho pelo PSV foi o caminho que o levou à convocação.
A primeira oportunidade na Seleção principal
Aos 27 anos, Mauro foi incluído na lista de Ancelotti para os amistosos contra Austrália e Índia, no ciclo de preparação da Seleção após a Copa do Mundo de 2026. O jogador chegou à convocação com experiência internacional, títulos nacionais e uma função consolidada no PSV.
Na partida contra a Índia, disputada em 3 de outubro, Mauro entrou no segundo tempo e teve participação importante em um lance defensivo, quando evitou que uma finalização adversária terminasse em gol. O Brasil venceu por 4 a 0, encerrando a sequência de amistosos com uma atuação que também marcou a primeira experiência do lateral em campo pela equipe principal.
A estreia foi mais um passo, não uma garantia de permanência definitiva na Seleção. A disputa por posições é intensa, e Mauro terá de continuar apresentando regularidade no clube para buscar novas oportunidades. Ainda assim, a convocação confirmou que sua carreira na Holanda não o afastou do objetivo que carregava desde a infância.
Uma trajetória diferente do caminho tradicional do futebol brasileiro
A história de Mauro Júnior também ajuda a ampliar a discussão sobre a formação de jogadores no Brasil. Nem todos os atletas chegam à elite nacional antes de se transferirem para o exterior. Alguns deixam o país ainda jovens e passam a construir sua carreira em ligas estrangeiras, onde precisam conquistar espaço longe da atenção cotidiana do público brasileiro.
Mauro não disputou o Brasileirão da Série A antes de sair do país, mas isso não significa que tenha pulado etapas de desenvolvimento. Ele passou pela base do Desportivo Brasil, teve experiência profissional no futebol paulista e encontrou no PSV uma estrutura que lhe permitiu amadurecer e competir por títulos.
Sua trajetória não é uma fórmula que garanta sucesso a qualquer jovem jogador. Transferências precoces envolvem riscos, adaptação e a possibilidade de perder espaço. No caso de Mauro, a permanência prolongada, a capacidade de mudar de posição e a regularidade foram fatores importantes para que a oportunidade inicial se transformasse em uma carreira de destaque.
De promessa pouco conhecida a jogador da Seleção
Mauro Júnior construiu sua história sem o caminho mais comum dos atletas que ganham projeção no futebol brasileiro. Saiu do Desportivo Brasil aos 18 anos, encontrou espaço no PSV, tornou-se um dos brasileiros mais presentes na história recente do clube e acumulou títulos na Holanda.
A convocação para a Seleção principal coroou um processo que começou muito antes de seu nome aparecer nas listas de Ancelotti. A previsão de Diego Freestyle em 2017 acrescentou um detalhe marcante à história, mas foi a evolução dentro de campo que tornou a expectativa possível.
O próximo desafio será transformar a primeira oportunidade em uma presença mais constante na equipe brasileira. Para isso, Mauro terá de continuar fazendo o que o levou até ali: adaptar-se, cumprir diferentes funções e manter o nível de atuação em um clube que se tornou sua casa profissional.
A trajetória deixa uma mensagem clara: não disputar a Série A do Campeonato Brasileiro antes de sair do país não impediu Mauro Júnior de conquistar espaço em um dos clubes tradicionais da Holanda e realizar o sonho de defender a Seleção Brasileira.
