Lionel Messi está a poucas horas de vestir pela última vez a camisa da Argentina.
Nesta terça-feira, 6 de outubro, o craque enfrentará Benin no Monumental de Núñez, em Buenos Aires, no último jogo de uma trajetória internacional que começou em 2005 e atravessou mais de duas décadas. A própria FIFA confirmou a partida como a despedida de Messi da seleção.
Mas o que torna esse momento realmente especial não é apenas o fim da carreira internacional de um dos maiores jogadores da história.
É a maneira como Messi chegou até aqui.
O argentino que será ovacionado no Monumental nem sempre teve uma relação simples com seu próprio país.
Durante anos, parte dos torcedores questionou justamente aquilo que hoje parece impossível imaginar: se Messi realmente sentia pela Argentina o mesmo que demonstrava pelo Barcelona.
Amanhã, essa dúvida praticamente desaparece.
2005 a 2016: quando Messi ainda precisava provar que era argentino
A história de Messi com a Argentina começou de maneira curiosa.
O jogador cresceu futebolisticamente na Espanha depois de se mudar para Barcelona ainda adolescente. Quando surgiu como grande promessa, a própria estrutura argentina teve dificuldades para localizá-lo e até houve confusão com seu nome nos primeiros contatos.
A Espanha também tentou convencê-lo a defender sua seleção.
Messi, porém, escolheu a Argentina.
Mesmo assim, a identificação não aconteceu imediatamente.
Quando começou a ganhar espaço na seleção principal, o atacante carregava uma comparação inevitável: por que o Messi do Barcelona parecia tão dominante, enquanto o Messi da Argentina nem sempre conseguia repetir aquelas atuações?
A crítica ganhou força principalmente após algumas eliminações dolorosas.
Messi chegou a ser chamado por torcedores de "pecho frío", expressão usada para questionar sua suposta falta de paixão ou personalidade com a camisa argentina.
A diferença entre o jogador visto em Barcelona e o jogador visto na seleção virou um dos grandes debates do futebol argentino.
A relação ainda estava longe de ser de idolatria.
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A Copa América de 2016 foi o ponto mais delicado
A derrota para o Chile na final da Copa América Centenário, em 2016, representou o momento mais dramático dessa relação.
Messi perdeu um pênalti na disputa e, pouco depois, anunciou que deixaria a seleção.
O anúncio provocou uma reação diferente daquela que ele provavelmente esperava.
Em vez de simplesmente responsabilizá-lo pela derrota, muitos argentinos passaram a pedir seu retorno.
A percepção começava a mudar.
Como explicou o jornalista argentino Sergio Levinsky à Reuters, aquele momento ajudou os torcedores a perceberem que Messi não era o responsável pelas derrotas — ele era justamente o jogador que havia levado a Argentina às decisões.
Foi uma virada importante.
Messi ainda não havia conquistado um grande título pela seleção principal.
Mas começava a surgir uma percepção diferente: talvez o problema nunca tivesse sido a falta de compromisso do jogador.
Talvez a Argentina simplesmente tivesse colocado sobre ele uma responsabilidade impossível.
2019 a 2022: o período que mudou tudo
A transformação definitiva veio nos anos seguintes.
Messi deixou de ser apenas o craque que precisava conquistar um título para a Argentina e passou a ser o líder de uma geração.
A Copa América de 2021 foi o primeiro grande marco.
A Argentina venceu o Brasil no Maracanã e Messi finalmente conquistou um título com a seleção principal.
Depois veio a Finalíssima contra a Itália, em 2022.
E então chegou o momento que mudou definitivamente sua história.
A Copa do Mundo de 2022
No Catar, Messi deixou de perseguir a aprovação dos argentinos.
Ele passou a comandar uma seleção campeã.
A campanha terminou com a vitória sobre a França na final, em uma das decisões mais marcantes da história das Copas.
Messi marcou dois gols naquela partida, converteu seu pênalti na disputa e levantou a Copa do Mundo.
A relação com os torcedores havia mudado completamente.
O jogador que durante anos foi acusado de não representar a Argentina como representava o Barcelona agora era o capitão que havia conduzido o país ao título mundial.
A idolatria ficou ainda maior depois da Copa
O título mundial não encerrou a história de Messi com a Argentina.
Ele continuou sendo protagonista.
A equipe de Lionel Scaloni manteve uma geração vencedora, e Messi passou a exercer uma liderança diferente daquela observada no início de sua trajetória.
Mais experiente, mais vocal e mais conectado ao grupo, o camisa 10 tornou-se referência de uma seleção que já não precisava justificar sua existência através das comparações com Maradona.
A discussão deixou de ser:
"Messi é argentino o suficiente?"
E passou a ser:
"Onde Messi está entre os maiores ídolos da história da Argentina?"
Para a Reuters, a transformação foi tão profunda que Levinsky descreveu a relação como um "amor em construção": diferente da ligação imediata que Diego Maradona tinha com os argentinos, a de Messi foi sendo construída ao longo dos anos.
Agora, o Monumental representa o último capítulo
É por isso que o jogo contra Benin tem um peso muito maior do que o de um simples amistoso.
Messi terá pela frente seu último compromisso pela seleção argentina no estádio Monumental, diante de uma torcida que esgotou os ingressos em cerca de 90 minutos.
A procura foi tão grande que a AFA preparou uma alternativa para quem não conseguiu entrar.
O Fan Fest "Gracias, Leo" será realizado no Campo de Deportes da Universidade de Buenos Aires, com transmissão ao vivo da partida em um telão gigante, além de shows, gastronomia, jogos e atrações relacionadas à trajetória do jogador. O evento acontecerá das 12h à meia-noite.
Não é apenas uma despedida de jogador.
É uma celebração de uma história que levou anos para ser construída.
O último jogo chega depois de uma carreira histórica
Messi chega à despedida como maior artilheiro e jogador com mais partidas pela Argentina, com 125 gols em 207 jogos, além de 68 assistências.
São números que ajudam a dimensionar o tamanho da trajetória.
Mas talvez eles não sejam o dado mais importante.
O principal legado de Messi pela Argentina não está apenas nos gols, títulos ou recordes.
Está na transformação da percepção sobre ele.
Em 2016, Messi saiu da seleção depois de mais uma derrota em uma final.
Em 2022, voltou do Catar como campeão mundial.
Em 2026, retorna ao Monumental para receber uma despedida que poucos jogadores argentinos tiveram a oportunidade de viver.
De jogador questionado a símbolo da seleção
A história de Messi com a Argentina pode ser dividida em três atos.
Primeiro: o garoto que deixou Rosario, cresceu em Barcelona e precisou convencer os argentinos de que pertencia à seleção.
Depois: o craque que chegou a quatro finais entre Copa do Mundo e Copa América antes de conquistar seu primeiro grande título.
Por fim: o capitão campeão da América, da Finalíssima e do mundo, transformado em um dos maiores símbolos da história da Albiceleste.
É justamente essa transformação que torna sua despedida tão diferente.
Messi não está apenas deixando a seleção.
Ele está deixando uma camisa que, durante parte da carreira, parecia exigir dele uma prova permanente de pertencimento.
Hoje, ninguém precisa mais perguntar se Messi pertence à Argentina.
O Monumental está preparado para agradecer ao jogador que finalmente transformou a desconfiança em idolatria.
