A tensão entre a UEFA e a FIFA ganhou um novo capítulo nesta semana. A entidade que comanda o futebol europeu exigiu respostas por escrito e documentos sobre decisões tomadas durante a gestão de Gianni Infantino, com atenção especial ao plano que previa abrir parte dos direitos comerciais da entidade a investidores privados. O prazo estabelecido para o envio dos esclarecimentos é 2 de novembro, aumentando a pressão sobre a direção da FIFA em meio à preparação para a próxima eleição presidencial.
A cobrança foi formalizada em uma carta enviada pelo secretário-geral da UEFA, Theodore Theodoridis, ao secretário-geral da FIFA, Mattias Grafström. Segundo reportagens da Reuters e da Associated Press, o documento reúne 42 perguntas relacionadas a diferentes assuntos, incluindo o projeto comercial abandonado, decisões de governança e possíveis conflitos de interesse. A UEFA afirma que as explicações apresentadas até agora não foram suficientes para esclarecer pontos considerados fundamentais. (Reuters; AP, via Al Jazeera)
O movimento vai além de uma divergência administrativa. A UEFA quer entender como decisões de grande impacto financeiro foram conduzidas, quem participou das negociações e por que determinadas propostas avançaram sem o envolvimento considerado adequado dos órgãos de governança da FIFA.
A entidade europeia também quer receber as respostas antes do encerramento do prazo para apresentação de candidaturas à presidência da FIFA, marcado para 18 de novembro. Com a eleição prevista para março de 2027, os esclarecimentos podem influenciar a avaliação que federações nacionais farão sobre a continuidade de Infantino no comando do futebol mundial.
O plano bilionário que provocou a crise
O principal foco da disputa é o projeto FIFA Forward Enterprise (FFE), que previa a criação de uma estrutura empresarial para administrar interesses comerciais da entidade e permitir a entrada de capital privado. A proposta envolvia a negociação de uma participação minoritária de aproximadamente 20% e foi associada a uma operação estimada em US$ 4,2 bilhões, com avaliação de cerca de US$ 20 bilhões para o negócio.
A iniciativa provocou resistência porque poderia alterar a forma como a FIFA administra parte de suas receitas comerciais, incluindo direitos ligados à Copa do Mundo. Para a UEFA, uma operação dessa dimensão não poderia avançar sem transparência, consulta adequada às confederações e participação dos órgãos responsáveis pelas decisões estratégicas.
O projeto foi abandonado após a reação contrária de dirigentes e entidades do futebol. A retirada, porém, não encerrou o problema: a UEFA passou a exigir explicações sobre a origem da proposta, as condições oferecidas aos possíveis investidores e os procedimentos utilizados para avaliar a operação.
O ponto central da cobrança é justamente a diferença entre cancelar um projeto e esclarecer como ele foi concebido. Na avaliação da entidade europeia, anunciar a retirada da iniciativa não responde automaticamente às dúvidas sobre as decisões tomadas antes de seu encerramento. (The Guardian)
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UEFA quer saber quem autorizou as negociações
Entre as questões levantadas estão os critérios utilizados para conduzir as conversas com investidores e as razões pelas quais o projeto avançou sem uma participação considerada suficiente do Conselho da FIFA. A entidade europeia também questiona a transparência dos procedimentos e a documentação que sustentou as decisões.
Essas perguntas têm peso porque a FIFA administra competições de alcance mundial e receitas comerciais de grande dimensão. Uma negociação envolvendo direitos associados à Copa do Mundo pode afetar não apenas a própria entidade, mas também a distribuição de recursos e o equilíbrio de poder entre as organizações que integram o futebol internacional.
A UEFA defende que os dirigentes precisam explicar as decisões passadas, independentemente de eventuais reformas futuras. Em outras palavras, uma mudança nas regras de governança não substitui a necessidade de esclarecer quem tomou determinadas decisões, com quais informações e sob quais critérios.
Até a publicação das reportagens consultadas, não havia uma resposta pública completa da FIFA à nova carta. Por isso, os questionamentos devem ser tratados como cobranças formais da UEFA, e não como comprovação de que houve ilegalidade na condução do projeto.
Relações políticas e outros episódios também entram na cobrança
A disputa não se limita à proposta comercial. A carta também aborda outras decisões e situações relacionadas à presidência de Infantino, incluindo questões sobre a governança interna da FIFA e episódios que despertaram dúvidas entre dirigentes europeus.
Entre os assuntos noticiados estão a concessão do Prêmio da Paz da FIFA ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o tratamento dado ao caso disciplinar do atacante norte-americano Folarin Balogun durante a Copa do Mundo de 2026. A UEFA também busca esclarecimentos sobre a independência dos órgãos judiciais, eleitorais e de ética da entidade, além de questões relacionadas à remuneração presidencial e a determinadas despesas e decisões operacionais.
A inclusão desses temas amplia o alcance da cobrança: a entidade europeia não quer apenas explicações financeiras sobre o FFE, mas respostas sobre o funcionamento institucional da FIFA e os mecanismos que deveriam garantir decisões independentes e transparentes.
É importante, entretanto, separar questionamentos de conclusões. A existência de perguntas sobre relações políticas ou decisões disciplinares não comprova, por si só, que tenha ocorrido interferência indevida ou violação de regras. O objetivo declarado da cobrança é obter informações e documentos que permitam esclarecer os episódios.
Infantino pediu desculpas, mas a pressão continua
A pressão aumentou depois de uma reunião do Conselho da FIFA em Zurique, na qual Infantino pediu desculpas por erros relacionados à condução do projeto comercial. Segundo relatos publicados pela imprensa internacional, as explicações apresentadas não convenceram os representantes europeus, que continuaram cobrando documentos e respostas mais detalhadas.
A reação mostra que a retirada do plano não foi suficiente para reconstruir a confiança entre as duas entidades. Para a UEFA, é necessário esclarecer como a proposta chegou tão longe e quais controles deveriam ter sido aplicados antes que uma operação desse porte avançasse.
A FIFA, por sua vez, enfrenta o desafio de responder a uma cobrança que reúne questões financeiras, institucionais e políticas. A forma como a entidade tratará o pedido poderá influenciar a relação com as federações europeias e o debate sobre as regras internas de governança.
A divergência também precisa ser compreendida no contexto da distribuição de poder no futebol mundial. A FIFA coordena competições globais, enquanto a UEFA representa o futebol europeu e organiza torneios de enorme relevância comercial. Quando as duas organizações divergem sobre decisões estratégicas, o conflito pode afetar negociações, reformas e a própria relação entre dirigentes.
Eleição de 2027 transforma o prazo em um teste político
O calendário eleitoral torna a cobrança ainda mais significativa. O prazo de 2 de novembro antecede o encerramento das candidaturas à presidência da FIFA, em 18 de novembro, enquanto a eleição está prevista para março de 2027.
A proximidade das datas permite que as federações avaliem as respostas de Infantino antes de definir suas posições sobre a próxima disputa presidencial. A UEFA, portanto, busca esclarecimentos em um momento no qual a transparência e a confiança na gestão podem se tornar argumentos centrais no debate sobre a continuidade do dirigente.
Isso não significa que a reeleição esteja automaticamente ameaçada. A força política de Infantino depende do apoio das federações filiadas à FIFA, e a oposição europeia, isoladamente, não determina o resultado. Ainda assim, a cobrança pode aumentar o custo político de não responder às dúvidas levantadas.
O prazo também cria um marco objetivo para acompanhar os próximos passos. Se a FIFA apresentar documentos e esclarecimentos considerados satisfatórios, poderá reduzir parte da pressão. Caso as respostas sejam incompletas ou não sejam fornecidas, a disputa poderá avançar para novas iniciativas institucionais e jurídicas.
O que acontece agora?
A próxima etapa é a resposta formal da FIFA até 2 de novembro. A UEFA espera receber não apenas explicações gerais, mas também documentos que permitam reconstruir como o projeto de direitos comerciais foi desenvolvido e como outras decisões questionadas foram tomadas.
O episódio deixa um desafio claro para Infantino: demonstrar que a FIFA possui mecanismos capazes de justificar decisões de grande impacto e de assegurar a independência de seus processos internos. Para a UEFA, o cancelamento do plano bilionário não encerra a discussão; é necessário esclarecer o que ocorreu antes de a proposta ser abandonada.
A crise, portanto, entrou em uma fase decisiva. A questão já não é apenas se a FIFA voltará a apresentar uma proposta semelhante, mas se a entidade conseguirá responder às dúvidas sobre sua governança antes que as federações definam o futuro de sua liderança. O conteúdo das respostas e a documentação apresentada nas próximas semanas poderão influenciar tanto a relação entre FIFA e UEFA quanto o ambiente político da eleição de 2027.
