Da Libertadores ao Z-4: por que clubes tradicionais estão sofrendo na Série B 2026?
A Série B de 2026 apresenta um contraste difícil de ignorar.
Clubes que, em diferentes momentos, chegaram a disputar competições internacionais e protagonizaram capítulos importantes do futebol brasileiro agora estão envolvidos em uma batalha completamente diferente: a luta para não cair para a Série C.
O atual Z-4 é formado por Ceará, Londrina, América-MG e Ponte Preta. Além deles, o Avaí também aparece ameaçado na parte inferior da tabela.
E existe um detalhe que torna essa situação ainda mais interessante.
O América-MG disputou a Libertadores recentemente, enquanto a Ponte Preta chegou à final da Copa Sul-Americana em 2013. O Ceará, por sua vez, teve uma campanha histórica na própria Sul-Americana e terminou a fase de grupos de 2022 com 100% de aproveitamento.
Como clubes com esse histórico chegaram a uma situação tão delicada?
A resposta passa por queda de investimento, perda de competitividade, campanhas ruins e, em alguns casos, problemas fora de campo.
América-MG: da Libertadores à crise
Entre os clubes que atualmente estão no Z-4, talvez nenhum represente melhor essa queda de patamar do que o América-MG.
O clube mineiro conseguiu algo histórico ao conquistar uma vaga inédita na Copa Libertadores após terminar o Campeonato Brasileiro de 2021 na oitava colocação.
A participação aconteceu em 2022.
O América entrou na competição com enorme expectativa, mas acabou eliminado ainda na fase de grupos, terminando na última posição de sua chave.
Poucos anos depois, a realidade é completamente diferente.
O Coelho aparece na penúltima colocação da Série B, com apenas 14 pontos em 25 partidas.
São:
- 3 vitórias;
- 5 empates;
- 17 derrotas.
O aproveitamento é extremamente baixo.
E o número mais preocupante está nas projeções de rebaixamento.
Segundo o Departamento de Matemática da UFMG, o América-MG tinha 99,78% de risco de rebaixamento no levantamento divulgado nesta sexta-feira.
Ou seja:
a queda para a Série C deixou de ser uma possibilidade distante e virou uma ameaça concreta.
O problema vai além do campo
No caso do América-MG, a situação também envolve questões financeiras.
O clube atravessa dificuldades econômicas e, segundo o levantamento do ge, enfrenta atrasos salariais.
Esse tipo de problema costuma atingir diretamente o desempenho esportivo.
Quando um elenco passa por instabilidade financeira, a concentração dos jogadores pode ser afetada.
Além disso, fica mais difícil manter atletas importantes e contratar reforços capazes de mudar o nível do time.
O futebol acaba entrando em um ciclo negativo:
menos dinheiro → elenco mais fraco → resultados ruins → menos receitas → mais dificuldades.
E sair desse ciclo é extremamente complicado.
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Ponte Preta: de final internacional ao último lugar
A situação da Ponte Preta também impressiona.
Em 2013, a Macaca viveu um dos momentos mais importantes de sua história.
O clube chegou à final da Copa Sul-Americana e enfrentou o Lanús, da Argentina.
Na ida, realizada no Pacaembu, Ponte Preta e Lanús empataram por 1 a 1.
Na decisão, na Argentina, o time brasileiro perdeu por 2 a 0 e terminou como vice-campeão.
Foi a primeira final internacional da história da Ponte.
A campanha ficou marcada como um dos grandes capítulos da história do clube.
Mais de uma década depois, a realidade é completamente diferente.
A Ponte Preta está na última colocação da Série B, com apenas 10 pontos em 25 partidas.
São:
- 2 vitórias;
- 4 empates;
- 19 derrotas.
O aproveitamento é de apenas 13,3%.
E o cenário projetado é ainda mais dramático.
A Ponte aparece com 99,99% de risco de rebaixamento para a Série C.
Uma queda muito rápida
Existe ainda outro detalhe importante no caso da Ponte.
O clube conseguiu retornar à Série B em 2026 depois de conquistar o título da Série C.
Ou seja, o time subiu de divisão, mas não conseguiu transformar o acesso em competitividade.
Isso mostra uma das grandes dificuldades do futebol brasileiro:
subir é difícil, mas permanecer também exige investimento.
A diferença técnica e financeira entre as divisões pode ser enorme.
Um elenco que domina a Série C pode encontrar dificuldades gigantescas na Série B.
E os números da Ponte mostram exatamente isso.
Ceará: um gigante ameaçado
O Ceará também aparece no Z-4, mas possui uma situação um pouco diferente.
O clube tem mais pontos e ainda possui condições reais de escapar.
Atualmente, o Vozão soma 25 pontos, com sete vitórias, sete empates e 11 derrotas.
O risco de queda calculado pela UFMG está em 48,1%.
É um número alto, mas muito diferente dos quase 100% apresentados por América-MG e Ponte Preta.
O Ceará ainda tem margem para reagir.
O contraste com 2022
A situação fica ainda mais curiosa quando lembramos da campanha internacional do Ceará.
Na Copa Sul-Americana de 2022, o Vozão fez uma campanha impressionante.
O clube venceu todos os seis jogos da fase de grupos, terminando com 100% de aproveitamento.
Foi uma campanha histórica.
Nenhum outro clube havia conseguido vencer todas as partidas de sua fase de grupos naquela competição até aquele momento.
Quatro anos depois, o mesmo clube luta contra o rebaixamento na segunda divisão brasileira.
É um retrato de como o futebol pode mudar rapidamente.
Londrina: tradição nacional, mas sem histórico recente internacional
O Londrina completa o atual Z-4.
O clube paranaense tem 20 pontos depois de 25 partidas:
- 5 vitórias;
- 7 empates;
- 13 derrotas.
O risco de rebaixamento chega a 87,4%, segundo a projeção citada pelo ge.
O Londrina também possui história na elite.
Sua melhor campanha no Campeonato Brasileiro aconteceu em 1977, quando chegou à semifinal.
O clube também conquistou a Primeira Liga em 2017, derrotando o Atlético-MG nos pênaltis.
Portanto, embora não tenha o mesmo histórico internacional recente de América-MG, Ceará e Ponte Preta, o Londrina também representa um clube tradicional que atualmente enfrenta dificuldades.
E o Avaí?
O Avaí não está atualmente entre os quatro últimos, mas merece atenção.
O clube catarinense está empatado com o Ceará em pontos e também luta contra o rebaixamento.
Além disso, possui uma experiência internacional relativamente recente.
O Avaí disputou a Copa Sul-Americana e, por isso, também faz parte desse grupo de clubes tradicionais que passaram por momentos de maior protagonismo e hoje enfrentam uma realidade muito mais complicada.
O que explica essa queda?
Não existe uma única razão.
Cada clube possui uma história diferente.
Mas alguns fatores aparecem com frequência.
1. Queda de investimento
O futebol brasileiro ficou cada vez mais caro.
Para disputar a Série A, os clubes precisam de elencos mais qualificados, departamentos profissionais e capacidade financeira.
Quando ocorre o rebaixamento, a receita cai.
Mas as despesas nem sempre diminuem na mesma velocidade.
Esse desequilíbrio pode gerar problemas.
2. Perda de jogadores importantes
Quando um clube perde receitas, normalmente também perde capacidade de manter seus melhores jogadores.
Isso cria uma reação em cadeia.
O time perde qualidade.
Os resultados pioram.
A confiança diminui.
E novos jogadores precisam ser contratados.
Nem sempre existe dinheiro para encontrar substitutos do mesmo nível.
3. Trocas constantes
Outro problema recorrente é a instabilidade no comando técnico.
Quando os resultados não aparecem, a primeira reação costuma ser trocar o treinador.
O problema é que uma mudança atrás da outra pode impedir a construção de um trabalho.
Cada técnico possui uma filosofia.
Um pede determinados jogadores.
Outro muda o esquema.
Um terceiro modifica novamente.
O elenco passa a viver em constante adaptação.
4. Ataque pouco eficiente
Na Série B, marcar gols é fundamental.
A competição costuma ser extremamente equilibrada.
Muitos jogos são decididos por um gol.
Um time que não consegue transformar oportunidades em gols acaba acumulando empates e derrotas.
E quando a defesa também apresenta problemas, a situação se torna ainda mais complicada.
5. Campanhas ruins fora de casa
Outro fator decisivo é o desempenho como visitante.
A Série B exige regularidade.
Não é suficiente vencer em casa.
Os candidatos à permanência precisam conquistar pontos fora.
Um time que perde constantemente longe de seu estádio coloca uma pressão enorme sobre os jogos como mandante.
E qualquer tropeço em casa pode ser fatal.
O peso psicológico da luta contra a queda
Existe ainda um fator que não aparece diretamente nas estatísticas:
a pressão.
Quanto mais um clube permanece no Z-4, maior fica a cobrança.
Cada derrota passa a ser tratada como uma tragédia.
Cada empate vira motivo de preocupação.
O jogador começa a entrar em campo sabendo que qualquer erro pode aumentar a distância para os concorrentes.
É nesse momento que a experiência de um elenco pode fazer diferença.
A Série B não perdoa períodos ruins
São 38 rodadas.
Isso significa que existe tempo para recuperação.
Mas também significa que uma sequência ruim pode destruir meses de trabalho.
O exemplo do América-MG é extremo.
Com apenas 14 pontos em 25 partidas, o clube precisa de uma arrancada praticamente perfeita para escapar.
Segundo a análise citada pelo ge, seriam necessários 29 pontos nas 14 rodadas restantes, em cenários como nove vitórias e dois empates ou oito vitórias e cinco empates.
Ou seja:
não basta melhorar.
É preciso mudar completamente o desempenho.
Quem ainda pode escapar?
O Ceará é o clube do Z-4 em situação mais confortável.
Com 25 pontos, ainda existe uma margem para reação.
O Londrina, com 20, precisa começar a vencer imediatamente.
América-MG e Ponte Preta vivem situação muito mais dramática.
As projeções atuais colocam os dois praticamente fora da briga pela permanência.
Mas futebol não é matemática pura.
Uma sequência de vitórias pode mudar o cenário.
O problema é que, quanto menos rodadas restam, menor é a margem para recuperação.
A queda mostra como o futebol mudou
Talvez a principal lição seja justamente essa.
História não garante permanência.
Ter camisa.
Ter torcida.
Ter tradição.
Ter disputado Libertadores.
Ter chegado a uma final continental.
Nada disso garante pontos dentro de campo.
O futebol atual exige planejamento financeiro, montagem de elenco, estrutura e regularidade.
Quando esses elementos desaparecem, até clubes tradicionais podem entrar em uma espiral negativa.
Da Libertadores à Série C?
Esse é o cenário que América-MG e Ponte Preta tentam evitar.
O América esteve na Libertadores há poucos anos.
A Ponte Preta chegou a uma final continental.
O Ceará dominou seu grupo na Sul-Americana.
Agora, os clubes precisam lutar contra um adversário completamente diferente:
a possibilidade de disputar a terceira divisão.
Se o rebaixamento for confirmado, será uma mudança gigantesca de patamar esportivo e financeiro.
O alerta para os clubes tradicionais
A situação desses times também serve como alerta para outros clubes brasileiros.
O futebol não permite viver apenas do passado.
Uma campanha histórica não garante o futuro.
Um título conquistado anos atrás não garante um elenco competitivo hoje.
E uma participação na Libertadores não impede um clube de enfrentar dificuldades financeiras posteriormente.
O planejamento precisa ser contínuo.
A Série B de 2026 apresenta um dos cenários mais curiosos do futebol brasileiro.
No atual Z-4 estão Ceará, Londrina, América-MG e Ponte Preta.
Entre eles, o América-MG tem uma passagem recente pela Libertadores.
A Ponte Preta foi vice-campeã da Copa Sul-Americana em 2013.
O Ceará fez uma campanha histórica na Sul-Americana de 2022.
E o Londrina possui uma trajetória importante no futebol brasileiro.
Ainda assim, todos estão lutando contra a possibilidade de queda.
O caso do América é especialmente preocupante: são apenas 14 pontos e uma projeção de 99,78% de risco de rebaixamento.
A Ponte está em situação ainda mais extrema, com apenas 10 pontos e 99,99% de risco de queda segundo a projeção citada pelo ge.
O Ceará ainda tem condições de reagir, enquanto o Londrina precisa transformar rapidamente seu desempenho para continuar vivo.
No fim, a história explica o tamanho dos clubes.
Mas é o presente que decide o futuro.
E, na Série B de 2026, clubes que já viveram noites internacionais agora lutam para evitar um dos capítulos mais dolorosos de suas histórias:
a queda para a Série C.
