Brasil bate recorde de vendas no futebol feminino: por que ainda exporta tão poucas jogadoras?

 

Futebol feminino bate recorde: Brasil ainda exporta pouco


Futebol feminino bate recorde: por que o Brasil ainda exporta tão poucas jogadoras?

O futebol feminino está atravessando uma transformação que já começa a aparecer de maneira clara nos números do mercado de transferências.

A janela internacional de 2026 registrou 1.406 transferências de jogadoras profissionais, o maior número já contabilizado pela FIFA. O crescimento foi de 19,2% em relação ao recorde anterior.

Mais impressionante ainda foi o dinheiro movimentado.

Os clubes gastaram US$ 28,6 milhões, aproximadamente R$ 145,6 milhões, em transferências internacionais. O valor representa mais que o dobro do registrado na mesma janela do ano anterior.

Mas existe uma contradição interessante nesse crescimento.

Enquanto o mercado mundial acelera, o Brasil ainda aparece longe dos países que mais movimentam dinheiro e jogadores.

O país vendeu 20 atletas e arrecadou US$ 748 mil, cerca de R$ 3,8 milhões.

O número representa um recorde brasileiro, mas também mostra o tamanho do caminho que ainda precisa ser percorrido.

Brasil bate recorde, mas ainda está atrás

O Brasil teve 11 compras e 20 vendas de jogadoras durante a janela.

Os clubes brasileiros gastaram apenas US$ 39,9 mil com contratações internacionais, enquanto arrecadaram US$ 748 mil com as vendas.

Ou seja, o futebol feminino brasileiro continua funcionando muito mais como exportador de talentos do que como um grande comprador no mercado internacional.

Isso não necessariamente é algo negativo.

Na verdade, demonstra que as jogadoras brasileiras continuam sendo valorizadas internacionalmente.

O problema está na escala.

Enquanto o Brasil movimentou menos de US$ 1 milhão em vendas, outros mercados já trabalham com cifras muito maiores.

Inglaterra lidera com enorme vantagem

A diferença para a Inglaterra é um dos dados mais impressionantes do levantamento.

Os clubes ingleses contrataram 125 jogadoras e venderam outras 95.

Além disso, investiram aproximadamente US$ 8 milhões em transferências.

O valor coloca a Inglaterra na liderança mundial em investimento no futebol feminino.

Na comparação direta, o cenário fica assim:

PaísJogadoras contratadasJogadoras vendidasInvestimento
🇬🇧 Inglaterra12595cerca de US$ 8 milhões
🇧🇷 Brasil1120US$ 39,9 mil

A diferença é enorme.

E ela ajuda a explicar por que a liga inglesa está se tornando um dos principais destinos das grandes jogadoras do mundo.

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A Inglaterra está construindo um mercado global

O futebol feminino inglês não está apenas contratando atletas.

Está atraindo algumas das principais estrelas internacionais.

A janela de 2026 teve movimentos importantes para a Women's Super League, incluindo a chegada de nomes de enorme peso internacional.

A presença de jogadoras como Alexia Putellas reforça a capacidade da competição de atrair talentos e aumentar sua visibilidade mundial.

Quanto mais estrelas chegam, maior tende a ser a audiência.

Quanto maior a audiência, maior o interesse de patrocinadores e emissoras.

E quanto mais dinheiro entra, maior é a capacidade dos clubes de investir novamente.

É o mesmo ciclo financeiro observado há anos no futebol masculino.

E o Brasil?

O Brasil possui uma das maiores tradições do futebol feminino mundial.

A Seleção Brasileira revelou algumas das maiores jogadoras da história.

Marta, Formiga, Cristiane e tantas outras ajudaram a construir uma identidade internacional para o país.

Mas tradição não significa necessariamente força financeira.

O futebol feminino brasileiro ainda enfrenta dificuldades estruturais.

Os clubes possuem orçamentos menores.

As competições nacionais ainda estão muito atrás das principais ligas europeias em receitas.

E a diferença de investimento acaba refletindo diretamente no mercado de transferências.

O Brasil exporta talento, mas compra pouco

Os números mostram uma característica importante do futebol brasileiro.

O país consegue formar jogadoras.

Mas possui pouca capacidade para competir financeiramente pela contratação de atletas estrangeiras.

Durante a janela, os clubes brasileiros gastaram apenas US$ 39,9 mil em transferências internacionais.

Isso significa que o mercado brasileiro ainda não consegue funcionar como um grande centro de atração de talentos internacionais.

O Brasil continua sendo, principalmente, um lugar de formação.

Por que isso acontece?

Existem vários motivos.

Estrutura financeira

A primeira explicação está no dinheiro.

Clubes europeus conseguem oferecer salários mais altos e estruturas profissionais mais desenvolvidas.

Isso pesa na decisão de uma jogadora.

Para uma atleta brasileira, uma transferência para a Europa pode representar não apenas uma oportunidade esportiva, mas também uma melhora significativa nas condições de trabalho.

Maior exposição

As principais ligas europeias estão aumentando sua audiência.

A Champions League feminina também ganhou enorme importância.

Os clubes passaram a investir mais em marketing, transmissão e criação de conteúdo.

Com isso, uma jogadora que atua na Europa consegue alcançar um público muito maior.

Essa exposição também aumenta seu valor comercial.

O caso Kerolin

Um dos maiores exemplos dessa nova realidade é Kerolin.

A brasileira deixou o Manchester City e foi contratada pelo Barcelona por € 1,5 milhão, cerca de R$ 8,6 milhões na cotação utilizada no levantamento.

A negociação estabeleceu novos recordes.

Kerolin se tornou a maior transferência envolvendo uma jogadora brasileira e também a maior venda da história do Manchester City feminino.

O negócio mostra que o mercado está disposto a pagar valores cada vez maiores por grandes talentos.

E mostra também que as brasileiras continuam tendo enorme potencial de valorização.

Letícia Teles também fez história

Outra negociação importante envolveu Letícia Teles.

A jogadora foi negociada pelo Corinthians com o Al Qadsiah, da Arábia Saudita, por aproximadamente US$ 700 mil, cerca de R$ 3,5 milhões.

O negócio se tornou a maior venda da história do Corinthians feminino e a segunda maior transferência do futebol feminino brasileiro.

São números que seriam inimagináveis alguns anos atrás.

Agora, começam a se tornar realidade.

O mercado está mudando

O mais importante talvez não seja o valor atual das transferências.

É a velocidade com que elas estão crescendo.

As dez maiores vendas da história do futebol feminino aconteceram desde 2025, mostrando como o mercado acelerou em um período muito curto.

Isso significa que os valores atuais provavelmente não representam o limite.

Se a audiência continuar crescendo, os investimentos também tendem a aumentar.

O que o Brasil precisa fazer?

O desafio brasileiro é transformar a formação de talentos em um negócio sustentável.

O país já possui matéria-prima.

Tem jogadoras.

Tem clubes tradicionais.

Tem torcida.

Tem uma Seleção historicamente competitiva.

O que falta é transformar esse potencial em uma estrutura financeira capaz de competir com os grandes mercados.

1. Melhorar as competições nacionais

Quanto mais competitiva for a liga brasileira, maior será o interesse do público.

Mais público significa mais audiência.

Mais audiência significa mais patrocinadores.

E mais patrocínio permite aumentar os investimentos nos clubes.

2. Valorizar as categorias de base

A formação precisa continuar sendo uma prioridade.

Se o Brasil conseguir formar jogadoras cada vez mais jovens e preparadas, os clubes poderão desenvolver atletas e posteriormente negociá-las por valores maiores.

O exemplo de Kerolin mostra o potencial desse modelo.

3. Aumentar a profissionalização

Não basta investir somente nas jogadoras.

É necessário melhorar:

  • centros de treinamento;
  • preparação física;
  • departamentos médicos;
  • análise de desempenho;
  • categorias de base;
  • marketing;
  • transmissão;
  • gestão;
  • relacionamento com torcedores.

Quanto melhor a estrutura, maior o potencial de valorização das atletas.

O Brasil pode virar um grande vendedor?

A resposta é sim.

Os números atuais já mostram isso.

O Brasil arrecadou US$ 748 mil com apenas 20 jogadoras vendidas.

E esse valor poderia crescer significativamente se os clubes conseguissem negociar mais atletas para mercados que estão dispostos a pagar valores maiores.

A questão é evitar que as brasileiras saiam muito cedo por valores baixos.

Quanto melhor a estrutura dos clubes, maior a capacidade de negociar.

O perigo de perder talentos cedo demais

Existe também um risco.

Se as melhores jogadoras deixarem o Brasil muito jovens, a competição nacional pode perder qualidade.

Isso pode reduzir o interesse do público.

Menos interesse pode significar menos audiência.

E menos audiência pode dificultar a chegada de novos investimentos.

Por isso, o desafio é encontrar equilíbrio.

O Brasil precisa exportar.

Mas também precisa conseguir manter suas principais jogadoras durante períodos importantes de suas carreiras.

A diferença para a Inglaterra é um alerta

Os números deixam isso muito claro.

A Inglaterra contratou 125 jogadoras e investiu cerca de US$ 8 milhões.

O Brasil contratou apenas 11 e gastou aproximadamente US$ 39,9 mil.

É uma diferença gigantesca.

Enquanto a Inglaterra está construindo um mercado capaz de atrair estrelas internacionais, o Brasil ainda está consolidando sua estrutura interna.

Isso não significa que o futebol brasileiro perdeu relevância.

Significa que outros mercados estão crescendo rapidamente.

O futebol feminino finalmente encontrou seu mercado?

Os números indicam que sim.

O crescimento de mais de 100% nos valores movimentados em relação à janela anterior mostra que o futebol feminino deixou de ser visto apenas como um investimento de longo prazo.

Os clubes começaram a enxergar as jogadoras também como ativos esportivos e financeiros.

Uma atleta pode ajudar a conquistar títulos.

Pode aumentar a audiência.

Pode gerar vendas de produtos.

Pode atrair patrocinadores.

E pode ser negociada posteriormente por uma quantia maior.

Esse modelo muda completamente a economia da modalidade.

E a tendência é de crescimento

O mercado ainda é pequeno quando comparado ao futebol masculino.

Mas justamente por isso existe espaço gigantesco para crescer.

A quantidade de transferências já bateu recorde.

Os valores estão subindo.

As grandes jogadoras estão mudando de clube por cifras cada vez maiores.

As ligas estão se profissionalizando.

E os grandes clubes estão começando a tratar o futebol feminino como uma propriedade esportiva estratégica.

O futebol feminino vive uma transformação histórica.

A janela de 2026 registrou 1.406 transferências internacionais, crescimento de 19,2%, e movimentou mais de US$ 28,6 milhões, mais que o dobro do ano anterior.

O Brasil também avançou.

As 20 jogadoras vendidas renderam US$ 748 mil, o maior valor já registrado pelo país.

Kerolin e Letícia Teles protagonizaram negociações históricas e ajudaram a mostrar que o talento brasileiro continua sendo valorizado.

Mas a comparação com a Inglaterra revela o tamanho do desafio.

Os clubes ingleses contrataram 125 jogadoras, venderam 95 e investiram aproximadamente US$ 8 milhões.

O Brasil contratou apenas 11 e gastou US$ 39,9 mil.

A diferença não está no talento.

Está na estrutura e no dinheiro.

O Brasil continua sendo um dos grandes formadores de jogadoras do planeta.

Agora, o próximo passo é fazer com que esse talento gere mais valor para os próprios clubes brasileiros.

Porque o mercado internacional já percebeu o potencial das brasileiras.

A pergunta é outra:

quando o futebol feminino brasileiro conseguirá transformar esse talento em uma indústria tão forte quanto as que estão surgindo na Europa?

Bruno Santana

Formado em Análise e Desenvolvimento de sistemas , mas apaixonado por futebol e escritos nas horas vagas

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