A discussão sobre o futuro das casas de apostas no Brasil chegou diretamente ao futebol. E, independentemente do destino das medidas em debate, os números mostram por que os clubes estão atentos: as bets se tornaram uma das principais fontes de dinheiro comercial para equipes brasileiras.
Segundo levantamento publicado pelo UOL, 13 dos 20 clubes da Série A têm atualmente contratos com empresas de apostas, enquanto os acordos do setor ainda representam mais de R$ 1 bilhão em patrocínios para os times da elite.
O impacto, portanto, poderia ir muito além da troca de uma marca na camisa. Para alguns clubes, uma redução brusca dessas receitas significaria menos dinheiro para salários, renovações, contratações e estrutura do futebol.
Mais de R$ 1 bilhão está ligado às bets
O tamanho dessa dependência ficou evidente nos últimos anos.
Em 2025, as casas de apostas chegaram a ocupar o espaço máster de 18 dos 20 clubes da Série A. Em 2026, esse número caiu para 13, mostrando que o mercado já vinha passando por uma concentração de investimentos antes da atual discussão.
Mesmo com a redução, os valores continuam elevados.
O Flamengo, por exemplo, possui um contrato com a Betano de R$ 268,5 milhões por ano, podendo chegar a R$ 280 milhões com variáveis. Já o Corinthians renovou com a Esportes da Sorte por R$ 150 milhões fixos anuais, com possibilidade de alcançar R$ 200 milhões.
Isso ajuda a dimensionar o problema: perder um patrocinador desse tamanho não seria simplesmente substituir uma placa de publicidade.
Flamengo poderia deixar de receber mais de R$ 268 milhões por ano
O caso do Flamengo é um dos mais expressivos.
O clube passou de um contrato de aproximadamente R$ 125 milhões anuais com a Pixbet para um acordo de R$ 268,5 milhões por temporada com a Betano. O crescimento representa mais de R$ 143 milhões adicionais por ano nessa propriedade comercial.
Para colocar o valor em perspectiva, estamos falando de aproximadamente:
R$ 22,4 milhões por mês.
Se um contrato dessa dimensão deixasse de existir e não fosse imediatamente substituído por outro patrocinador de valor semelhante, o impacto sobre o orçamento seria significativo.
E o Flamengo atualmente trabalha com um futebol extremamente caro. Em 2026, o clube já ultrapassou R$ 900 milhões em investimentos em contratações desde o início da gestão Bap, incluindo direitos econômicos, luvas e comissões.
A perda de receita comercial não significaria necessariamente cancelar contratações, mas poderia reduzir a capacidade de manter o mesmo ritmo de investimentos.
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Corinthians tem outro exemplo de dependência
No Corinthians, a exposição é ainda mais clara quando se olha para a camisa.
O clube prevê receber R$ 276,7 milhões em 2026 pelos contratos relacionados ao uniforme de jogo. Desse total, R$ 150 milhões vêm apenas da Esportes da Sorte, patrocinadora máster.
Ou seja: mais da metade da receita prevista com a camisa está concentrada em uma empresa de apostas.
O valor também é relevante quando comparado ao cenário financeiro do clube. O Corinthians registrou déficit de R$ 143,4 milhões em 2025, segundo o balanço apresentado pela gestão.
Nesse contexto, uma eventual perda de R$ 150 milhões anuais exigiria uma reposição muito rápida dessa receita ou cortes em outras áreas.
E as bets já ajudaram diretamente a contratar jogadores
Existe outro detalhe importante nessa história: o dinheiro das apostas não ficou restrito aos espaços publicitários.
Em 2025, o UOL mostrou que contratos com empresas do setor chegaram a ser utilizados diretamente em operações envolvendo jogadores.
No Corinthians, uma cláusula do acordo com a Esportes da Sorte previa R$ 57 milhões destinados à contratação de um jogador de peso. O dinheiro foi utilizado na negociação para levar Memphis Depay ao clube.
O São Paulo também teve um exemplo significativo.
A Superbet participou financeiramente do acordo que levou Oscar ao clube. O jogador tinha salário estimado em aproximadamente R$ 2,3 milhões por mês, e a patrocinadora bancava pouco mais da metade desse valor, cerca de R$ 12,87 milhões por ano.
Esses casos mostram como a relação entre patrocínio e futebol pode chegar diretamente ao elenco.
O que pode acontecer com os contratos dos jogadores?
Esse talvez seja o efeito mais importante para os torcedores.
Uma eventual saída das bets não significa automaticamente que um clube deixará de pagar determinado jogador. Os contratos trabalhistas e esportivos continuam existindo.
O problema aparece na hora de renovar, contratar ou aumentar salários.
Um clube que perde R$ 100 milhões, R$ 150 milhões ou até R$ 268 milhões anuais precisa encontrar outra fonte de receita para compensar a diferença.
Se não conseguir, algumas decisões podem aparecer:
- redução do orçamento para novas contratações;
- dificuldade para renovar com jogadores valorizados;
- menor capacidade de oferecer salários elevados;
- redução de investimentos em luvas e direitos de imagem;
- necessidade de vender atletas para equilibrar o caixa;
- busca por patrocinadores alternativos por valores menores.
É justamente nesse ponto que uma mudança comercial pode chegar ao campo.
Memphis mostra como o dinheiro pode interferir em uma renovação
O próprio Corinthians oferece outro exemplo recente.
Na renovação de Memphis Depay, o jogador abriu mão de R$ 13,7 milhões em benefícios para facilitar o novo acordo. Entre os pontos estava a redução do valor de marketing que o clube precisaria arrecadar para viabilizar o contrato.
Isso mostra que contratos de grandes jogadores podem envolver diversas fontes de receita além do salário tradicional.
Por isso, uma queda brusca na arrecadação comercial pode dificultar justamente os acordos que dependem de novas receitas para serem sustentáveis.
Quais clubes ficariam mais expostos?
Não existe um impacto igual para todos.
O tamanho da exposição depende principalmente de quanto cada clube recebe das bets e de quanto esse dinheiro representa dentro de seu orçamento.
Entre os maiores contratos de 2026 estão:
| Clube | Bet | Valor anual divulgado |
|---|---|---|
| Flamengo | Betano | R$ 268,5 milhões |
| Corinthians | Esportes da Sorte | R$ 150 milhões fixos |
| Palmeiras | Sportingbet | R$ 100 milhões |
| Vasco | Betfair | R$ 70 milhões |
| Atlético-MG | H2Bet | R$ 60 milhões |
| São Paulo | Superbet | R$ 52 milhões |
Os valores variam conforme o contrato, bônus e condições comerciais, mas mostram a dimensão do dinheiro envolvido.
Nos maiores clubes, existe maior capacidade de buscar alternativas comerciais. Já para equipes com orçamento menor, a substituição de um contrato de dezenas de milhões pode representar uma parcela muito mais relevante das receitas disponíveis.
O futebol teria que procurar outro mercado
O cenário de 2026 já mostra que as bets não estão mais crescendo de maneira uniforme.
Em 2025, 18 clubes tinham uma bet como patrocinadora máster. Em 2026, são 13, segundo levantamento da Folha. Santos e Vasco, por exemplo, trocaram parceiros e passaram a receber valores menores.
Isso significa que o futebol brasileiro já vinha passando por uma mudança no mercado de patrocínios.
Caso as empresas de apostas deixassem completamente esse espaço, os clubes precisariam encontrar novas empresas dispostas a colocar centenas de milhões de reais por ano no futebol.
E não há garantia de que outros setores pagariam imediatamente os mesmos valores.
O impacto poderia chegar ao mercado de transferências
A consequência mais visível para o torcedor poderia aparecer nas janelas de transferências.
O futebol brasileiro movimentou R$ 3,58 bilhões com vendas de jogadores em 2025, enquanto os clubes gastaram aproximadamente R$ 2,25 bilhões em contratações.
Patrocínio e venda de atletas são receitas diferentes, mas ambas ajudam a formar o orçamento disponível para o futebol.
Se uma fonte comercial importante desaparece, o clube pode precisar compensar com outras receitas: venda de jogadores, premiações, bilheteria, sócio-torcedor, direitos de transmissão ou novos patrocinadores.
Na prática, isso pode significar uma mudança de estratégia.
Um clube que antes conseguia manter um jogador caro e ainda contratar reforços pode passar a precisar escolher entre as duas coisas.
Não seria apenas uma perda para os clubes
O tamanho do mercado ajuda a explicar a dimensão da discussão.
Os 20 maiores clubes brasileiros analisados pela EY registraram R$ 14,9 bilhões em receitas em 2025, enquanto o endividamento chegou a R$ 15,3 bilhões.
Nesse universo, os mais de R$ 1 bilhão associados aos patrocínios das bets representam uma fatia relevante, embora não sejam a única fonte de receita.
Por isso, o eventual desaparecimento desse dinheiro não significaria automaticamente que o futebol brasileiro entraria em colapso. O efeito dependeria de quanto dos contratos seria perdido, de quais clubes seriam afetados e da capacidade de substituição por outras marcas.
Mas os números mostram que não seria uma mudança pequena.
O dinheiro que está na camisa pode terminar dentro do campo
A discussão sobre as bets ganhou força fora do futebol, mas suas consequências econômicas podem aparecer diretamente dentro dos clubes.
São centenas de milhões de reais em contratos, parte deles ligados a propriedades importantes das camisas e, em alguns casos, a operações envolvendo jogadores.
Para Flamengo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo e outras equipes, o desafio de substituir esse dinheiro seria principalmente comercial e financeiro.
E, caso a reposição não aconteça no mesmo nível, o efeito pode chegar ao torcedor: menos dinheiro para contratações, mais dificuldade para manter salários elevados e maior necessidade de vender jogadores para equilibrar as contas.
O futebol brasileiro já mostrou que consegue substituir patrocinadores. A questão, agora, seria descobrir quanto dinheiro conseguiria recuperar nessa troca.
