No universo do futebol, o pano que envolve o corpo de um atleta pode deixar de ser apenas um uniforme para se tornar uma relíquia histórica. Para colecionadores e investidores, certas peças carregam a alma de momentos que definiram gerações. Recentemente, o mercado de memorabilia esportiva atingiu patamares astronômicos, transformando "pedaços de tecido" em ativos financeiros que rivalizam com obras de arte de grandes mestres.
Mas quais são, afinal, as camisas que quebraram a banca? O que faz um uniforme custar milhões de dólares? Nesta reportagem, mergulhamos nos leilões mais caros da história e analisamos o valor dos mantos dos grandes clubes do Brasil.
O Olimpo dos Leilões: As Camisas Milionárias
Até poucos anos atrás, a ideia de pagar o preço de uma mansão em uma camisa de futebol parecia absurda. Tudo mudou em maio de 2022, quando a casa de leilões Sotheby's, em Londres, colocou à venda a camisa usada por Diego Maradona nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986.
Esta não era uma camisa qualquer. Foi o manto azul com o qual o "Pibe de Oro" marcou os dois gols mais famosos da história contra a Inglaterra: a polêmica "Mão de Deus" e o "Gol do Século". O item foi arrematado por impressionantes US$ 9,3 milhões (aproximadamente R$ 44 milhões na cotação da época), estabelecendo um recorde mundial absoluto para camisas de futebol.
Logo atrás, surge Lionel Messi. Em dezembro de 2023, um conjunto de seis camisas usadas pelo craque durante a campanha do título da Argentina na Copa do Catar em 2022 foi vendido por US$ 7,8 milhões. Embora seja um lote de peças, o valor médio por unidade e a relevância histórica consolidam Messi no topo do mercado de luxo esportivo.
O Rei Pelé e a mística de 1970
Antes de Maradona e Messi inflacionarem o mercado, o recorde pertencia ao Rei do Futebol. A camisa 10 usada por Pelé na final da Copa do Mundo de 1970, contra a Itália, foi leiloada em 2002 por US$ 225 mil. Corrigindo pela inflação e pelo novo apetite do mercado, especialistas acreditam que, se essa mesma peça fosse a leilão hoje, ela poderia facilmente desafiar o recorde de Maradona.
Tabela de Valores: Do Mundo ao Brasil
Enquanto o mercado global foca em relíquias de Copas do Mundo e lendas internacionais, o cenário brasileiro tem suas próprias joias. No Brasil, o valor de leilão muitas vezes se mistura com o valor de mercado de patrocínios (o quanto a camisa "gera" para o clube), mas os itens históricos de colecionador também alcançam cifras consideráveis.
Abaixo, apresentamos um comparativo entre as camisas mais caras já leiloadas no mundo e uma estimativa de valor para peças raras dos grandes clubes brasileiros no mercado de colecionismo de alto padrão (peças usadas em jogo/match-worn).
| Posição | Item / Clube | Jogador / Relevância | Valor (Estimado ou Real) |
| 1º | Argentina (1986) | Diego Maradona ("Mão de Deus") | US$ 9.280.000 |
| 2º | Argentina (2022) | Lionel Messi (Lote de 6 camisas) | US$ 7.803.000 |
| 3º | Brasil (1970) | Pelé (Final da Copa) | US$ 225.000 (em 2002) |
| 4º | Inglaterra (1966) | Geoff Hurst (Final da Copa) | US$ 115.000 |
| 5º | Santos (Anos 60) | Pelé (Era de Ouro) | R$ 150.000 - R$ 300.000 |
| 6º | Flamengo (1981) | Zico (Mundial Interclubes) | R$ 80.000 - R$ 150.000 |
| 7º | São Paulo (1992/93) | Raí / Telê (Bicamundial) | R$ 40.000 - R$ 70.000 |
| 8º | Corinthians (1990/2000) | Neto / Marcelinho Carioca | R$ 30.000 - R$ 60.000 |
| 9º | Palmeiras (1993/99) | Evair / Alex (Libertadores) | R$ 25.000 - R$ 50.000 |
| 10º | Vasco (1998) | Juninho / Edmundo (Libertadores) | R$ 20.000 - R$ 45.000 |
Por que esses preços?
Como analista, observo que o mercado de colecionismo esportivo passou por uma "financeirização". Antigamente, colecionar camisas era um hobby de torcedor; hoje, é diversificação de portfólio.
A Escassez do Momento: O valor não está no tecido, mas no evento. A camisa de Maradona vale milhões porque é o registro físico do momento em que o futebol se fundiu com a narrativa política (Guerra das Malvinas) e a genialidade técnica.
O Efeito "Last Dance": A valorização de itens de Michael Jordan (cuja camisa de 1998 detém o recorde geral de esportes com US$ 10,1 milhões) abriu portas para que o futebol entrasse no radar de investidores americanos e árabes.
O Potencial do Brasil: O mercado brasileiro ainda é subvalorizado. Peças de Pelé no Santos ou de Zico no Flamengo são ativos que tendem a valorizar exponencialmente à medida que casas como Sotheby's e Christie's olham com mais atenção para o futebol sul-americano.

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