O Milagre de Jundiaí: A Saga Épica do Paulista, o Pequeno que Gigante que ganhou a Copa do Brasil 2005
O futebol brasileiro é movido por histórias de superação, mas poucas se comparam à trajetória do Paulista de Jundiaí em 2005. Em uma das maiores zebras — e lições de competência — da história do esporte nacional, o "Galo da Japi" rompeu a lógica financeira e técnica para levantar a taça da Copa do Brasil, superando gigantes e garantindo uma vaga inédita na Copa Libertadores da América.
Sob o comando do estrategista Vágner Mancini, o time de Jundiaí não apenas venceu; ele convenceu, demonstrando que organização tática e coragem podem, sim, derrubar orçamentos milionários.
O Início da Jornada: Do Anonimato ao Respeito
A caminhada começou de forma modesta. Na primeira fase, o Paulista enfrentou o Juventude, que na época era um time consolidado na Série A do Brasileirão. O primeiro jogo em Jundiaí terminou com uma vitória magra de 1 a 0. No jogo da volta, em Caxias do Sul, o Paulista segurou um empate em 1 a 1, avançando para a segunda fase.
Ali, o adversário seria o Botafogo. O primeiro grande teste de fogo. No estádio Jayme Cintra, o Paulista impôs seu ritmo e venceu por 1 a 0. No Rio de Janeiro, em um jogo dramático, a derrota por 2 a 1 (pela regra do gol qualificado, que existia na época) garantiu a classificação paulista. O Brasil começava a olhar para Jundiaí com curiosidade, mas ninguém imaginava o que viria a seguir.
O Extermínio de Gigantes: Coritiba e Internacional
Nas oitavas de final, o Paulista cruzou com o Coritiba. O primeiro jogo, em Jundiaí, foi um festival de gols: 1 a 0 para o Galo. No Couto Pereira, uma partida eletrizante terminou com a classificação do Paulista nos pênaltis após uma derrota por 2 a 1 no tempo normal. A estrela do goleiro Victor (que anos depois se tornaria ídolo mundial no Atlético-MG) começava a brilhar intensamente.
Nas quartas de final, o desafio parecia intransponível: o Internacional de Porto Alegre, recheado de estrelas como Fernandão e Rafael Sóbis.
Ida: Em Jundiaí, uma vitória categórica por 1 a 0 deu a vantagem ao time de Mancini.
Volta: No Beira-Rio lotado, o Inter pressionou absurdamente. O Paulista perdeu por 1 a 0, levando a decisão para os pênaltis. Victor brilhou novamente, e o Paulista silenciou o Rio Grande do Sul ao vencer por 4 a 2 nas penalidades. O "pequeno" de Jundiaí já estava entre os quatro melhores do país.
A Semifinal Épica contra o Cruzeiro
Se passar pelo Inter foi difícil, a semifinal contra o Cruzeiro foi o teste definitivo. O time mineiro era amplamente favorito. No entanto, o primeiro jogo no Jayme Cintra foi um atropelo tático. Com gols de Cristian, o Paulista venceu por 3 a 1, abrindo uma vantagem considerável.
No Mineirão, o Cruzeiro partiu para o "tudo ou nada". O jogo terminou 3 a 2 para a Raposa, em um duelo de tirar o fôlego onde o Paulista mostrou uma resiliência defensiva invejável. O placar agregado de 5 a 4 carimbou o passaporte de Jundiaí para a grande final. O improvável era realidade: o Paulista de Jundiaí decidiria um título nacional.
A Grande Final: O David contra o Golias Fluminense
O adversário na final era o Fluminense, que contava com nomes como Gabriel, Tuta e o veterano sérvio Petkovic. A expectativa geral era de que a "festa do interior" acabaria ali.
O Jogo de Ida: O Caldeirão de Jundiaí (15/06/2005)
No estádio Jayme Cintra totalmente tomado pela torcida tricolor jundiaiense, o Paulista fez uma partida perfeita. O time não deu espaços ao Fluminense.
Aos 21 minutos do segundo tempo, Leo abriu o placar após um cruzamento preciso.
Pouco depois, Márcio Mossoró, o motorzinho daquela equipe, ampliou para 2 a 0.
A vitória por dois gols de diferença deu ao Paulista a possibilidade de perder por até um gol de diferença no Rio de Janeiro.
O Jogo da Volta: O Grito de Campeão no São Januário (22/06/2005)
O Fluminense levou o jogo para o São Januário, esperando que a pressão da torcida carioca sufocasse os comandados de Mancini. O clima era de "já ganhou" para os cariocas, que acreditavam na reversão do placar.
Contudo, o Paulista deu uma aula de estratégia. Victor fez defesas milagrosas. A zaga, liderada por Anderson e Rever (então um jovem promissor), foi impecável. O jogo terminou em um suado 0 a 0. Quando o árbitro apitou o fim da partida, o Brasil testemunhou o impossível: o Paulista de Jundiaí era o Campeão da Copa do Brasil de 2005.
Os Pilares da Conquista
Para entender como um time de menor expressão chegou a tal feito, é preciso olhar para as peças-chave daquela engrenagem:
Vágner Mancini: Em seu início de carreira, montou um sistema 4-4-2 extremamente compacto, que saía em velocidade nos contra-ataques.
Victor: O goleiro foi a alma do time, defendendo pênaltis cruciais e garantindo a segurança necessária nas fases finais.
Márcio Mossoró: O cérebro do meio-campo. Sua habilidade em carregar a bola e servir os atacantes foi o diferencial técnico do torneio.
Cristian: O volante não só protegia a zaga, mas aparecia como elemento surpresa para marcar gols importantes, como os dois contra o Cruzeiro.
A União do Elenco: Era um grupo sem vaidades, formado por jogadores que buscavam seu lugar ao sol e que jogavam cada partida como se fosse a última de suas vidas.
O Legado do Título
A conquista do Paulista de 2005 permanece como um marco de esperança para os clubes do interior. O título não trouxe apenas o troféu para a galeria de Jundiaí, mas também o direito de disputar a Copa Libertadores de 2006, onde o clube chegou a vencer o poderoso River Plate da Argentina.
Aquele 22 de junho de 2005 não foi apenas o dia em que um time do interior venceu uma copa; foi o dia em que o futebol provou que, dentro das quatro linhas, a história é escrita com suor, tática e coração, independentemente do tamanho do escudo. O Paulista de Jundiaí saiu de campo com a Copa do Brasil e entrou definitivamente para o folclore e a glória do esporte nacional.

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