FIFA libera documentos de projeto bilionário abandonado após pressão de federações

Gianni Infantino, presidente da FIFA, durante reunião da entidade em meio à polêmica sobre o projeto comercial FIFA Forward Enterprise


Conselheiros poderão consultar arquivos do FIFA Forward Enterprise na sede da entidade, na Suíça, mas acesso será presencial e limitado. Projeto previa participação de investidores privados em uma estrutura comercial avaliada em US$ 20 bilhões e provocou uma crise política envolvendo Gianni Infantino e a UEFA.

A FIFA decidiu abrir o acesso a documentos relacionados ao FIFA Forward Enterprise (FFE), projeto comercial bilionário que foi abandonado em julho de 2026 após forte resistência de federações nacionais e dirigentes do futebol internacional. A iniciativa previa a criação de uma estrutura empresarial para administrar direitos comerciais de competições da entidade, com participação de investidores privados em um negócio estimado em US$ 20 bilhões.

A decisão de permitir a consulta dos arquivos foi comunicada aos integrantes do Conselho da FIFA por meio de uma carta enviada pelo secretário-geral da entidade, Mattias Grafström. Os documentos poderão ser examinados presencialmente na sede da organização, em Zurique, na Suíça, sob condições rigorosas de confidencialidade.

A medida, divulgada em 2 de novembro e repercutida internacionalmente no dia seguinte, representa uma resposta parcial às cobranças por transparência que cresceram desde o surgimento do projeto. A UEFA, principal voz de oposição à proposta, vinha exigindo explicações sobre as negociações, a avaliação financeira do negócio e a participação de dirigentes e investidores nas conversas.

O acesso, entretanto, não significa que a FIFA decidiu publicar os documentos integralmente. Os conselheiros interessados precisam manifestar sua intenção dentro do prazo estabelecido, até 16 de novembro, e poderão consultar o material apenas nas instalações da entidade, seguindo regras específicas para preservar a confidencialidade.

O episódio ultrapassou a discussão sobre um investimento privado. A controvérsia passou a envolver a governança da FIFA, a concentração de poder na presidência de Gianni Infantino e a relação entre a entidade e as confederações continentais. Com a eleição presidencial prevista para março de 2027, a crise também ganhou importância política.

O que era o FIFA Forward Enterprise?

O FIFA Forward Enterprise foi uma proposta apresentada pela administração de Gianni Infantino para criar uma estrutura empresarial voltada à exploração comercial de competições e direitos ligados à FIFA. A ideia era separar determinadas atividades comerciais da estrutura tradicional da entidade e permitir a entrada de investidores privados no negócio.

O projeto previa uma avaliação empresarial de aproximadamente US$ 20 bilhões. A proposta discutida envolvia a venda de uma participação minoritária de cerca de 20% a investidores, em uma operação que poderia movimentar aproximadamente US$ 4,2 bilhões.

Entre os ativos comerciais considerados estavam direitos relacionados às principais competições organizadas pela FIFA, incluindo a Copa do Mundo masculina, a Copa do Mundo feminina e o Mundial de Clubes. A nova estrutura teria a responsabilidade de administrar atividades comerciais e operações ligadas a esses eventos, permitindo que investidores participassem dos resultados financeiros futuros.

A FIFA argumentava que a iniciativa poderia ampliar os recursos destinados ao desenvolvimento do futebol mundial. A promessa era aumentar a capacidade de investimento da entidade e oferecer mais dinheiro às 211 associações nacionais filiadas, especialmente aquelas que dependem dos programas de distribuição financeira para desenvolver suas estruturas esportivas.

Uma das empresas apontadas como potencial investidora principal foi a Thrive Eternal, ligada à Thrive Capital, empresa de investimentos fundada por Joshua Kushner. A possibilidade de participação desse grupo chamou atenção internacional, tanto pelo tamanho da operação quanto pelas conexões familiares de Joshua com Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A participação da empresa, entretanto, fazia parte de uma proposta que não chegou a ser concretizada. O projeto foi retirado antes de se transformar em uma operação comercial concluída.

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Por que o projeto provocou tanta resistência?

A reação contrária não aconteceu apenas por causa da entrada de investidores privados no futebol. O principal questionamento envolveu a maneira como a proposta teria sido desenvolvida e apresentada.

A UEFA e outros dirigentes alegaram que uma operação dessa dimensão deveria passar por uma discussão ampla dentro da estrutura da FIFA, com participação efetiva do Conselho, das confederações continentais e das associações nacionais. A crítica era de que negociações importantes teriam avançado sem consulta adequada aos responsáveis pela governança da entidade.

Outro ponto de preocupação foi a avaliação financeira do negócio. A operação estimava o valor da estrutura comercial em US$ 20 bilhões, mas a participação de aproximadamente 20% seria negociada por cerca de US$ 4,2 bilhões.

Para os críticos, não havia transparência suficiente sobre os critérios utilizados para chegar a essa avaliação. A UEFA questionou se os direitos comerciais da FIFA não estariam sendo negociados por um valor inferior ao que poderiam alcançar em um processo competitivo, com participação de diferentes interessados.

A ausência de informações detalhadas sobre a negociação também alimentou dúvidas sobre a existência de uma concorrência adequada e sobre os mecanismos utilizados para selecionar os potenciais investidores.

O debate envolvia uma questão central: a quem pertencem, na prática, os ativos comerciais da FIFA? Como a entidade representa 211 associações nacionais e administra competições que movimentam bilhões de dólares, qualquer mudança na estrutura de exploração desses direitos tem consequências que ultrapassam os interesses de seus dirigentes.

As federações queriam garantias de que uma operação dessa dimensão não reduziria sua influência sobre as decisões comerciais e financeiras da organização.

UEFA cobra explicações e pressiona por transparência

A UEFA liderou a resistência ao FIFA Forward Enterprise e transformou o caso em uma discussão mais ampla sobre a administração de Gianni Infantino. A confederação europeia passou a exigir respostas sobre a elaboração do projeto, a avaliação dos direitos comerciais e as decisões tomadas pela presidência da entidade.

Em outubro, a UEFA encaminhou uma carta à secretaria-geral da FIFA com uma série de perguntas e solicitações de documentos. Os questionamentos não se limitaram ao FFE: também abordaram outras decisões recentes da administração, incluindo a premiação da FIFA da Paz concedida a Donald Trump e controvérsias relacionadas a decisões disciplinares durante a Copa do Mundo de 2026.

O prazo estabelecido pela UEFA para receber respostas terminou em 2 de novembro. A FIFA, porém, não apresentou uma resposta completa dentro do período solicitado. A entidade argumentou que o volume e a complexidade das questões tornavam impraticável cumprir o prazo e afirmou que preparava uma manifestação para os integrantes do Conselho.

A liberação de acesso presencial aos documentos do FFE surgiu nesse contexto. Embora represente um avanço em relação à ausência de consulta direta aos arquivos, a decisão não atende integralmente à exigência de transparência feita pela UEFA.

O principal questionamento continua sendo a limitação do acesso. Os conselheiros poderão consultar documentos selecionados, mas não há garantia de que todo o material solicitado estará disponível ou de que seu conteúdo poderá ser compartilhado publicamente.

O caráter restrito da consulta também dificulta uma avaliação independente por parte de especialistas, jornalistas e representantes das associações nacionais que não integram o Conselho da FIFA.

Projeto foi abandonado após reação internacional

A proposta do FIFA Forward Enterprise foi retirada em 31 de julho de 2026, poucos dias depois de sua divulgação pública. A reação contrária cresceu rapidamente e envolveu confederações continentais, federações nacionais e integrantes da própria estrutura da FIFA.

Gianni Infantino justificou a retirada afirmando que a proposta havia provocado divisões que deixaram de atender ao objetivo original. Segundo o presidente, a intenção era aumentar os recursos destinados ao desenvolvimento do futebol, mas a resistência demonstrou que o projeto não tinha o apoio necessário para continuar.

A oposição também produziu consequências dentro da própria administração da entidade. Carlos Cordeiro, um dos principais conselheiros de Infantino, deixou seu cargo após manifestar discordância com a possibilidade de vender uma participação nos direitos comerciais da FIFA.

O episódio revelou que a resistência não estava restrita à UEFA. Dirigentes de diferentes regiões passaram a questionar a condução do projeto e a necessidade de maior participação das associações nacionais nas decisões estratégicas.

Em outubro, durante uma reunião do Conselho da FIFA em Zurique, Infantino pediu desculpas pelos erros cometidos na condução e na comunicação da proposta. Na ocasião, afirmou que o FIFA Forward Enterprise havia sido definitivamente retirado e que não voltaria a ser apresentado sob outra forma.

A entidade também informou que um grupo de trabalho seria criado para examinar possíveis reformas em sua estrutura de governança. A iniciativa foi apresentada como uma tentativa de responder às críticas e melhorar os mecanismos de participação e controle interno.

UEFA também busca documentos por meio da Justiça dos Estados Unidos

A disputa não ficou limitada às reuniões institucionais. A UEFA também recorreu à Justiça dos Estados Unidos para tentar obter documentos e depoimentos relacionados à elaboração do FIFA Forward Enterprise.

A confederação apresentou pedidos a tribunais norte-americanos com o objetivo de conseguir informações de entidades ligadas à FIFA que possuem operações no país. O material poderia ser utilizado em uma eventual iniciativa judicial na Suíça, onde a UEFA avalia apresentar uma denúncia relacionada à possível má gestão financeira do projeto.

Entre os questionamentos levantados estão a forma como a operação foi estruturada, a avaliação dos direitos comerciais, a participação de investidores e a ausência de um processo competitivo de negociação.

A UEFA também levantou suspeitas sobre possíveis conflitos de interesse e questionou se a estrutura proposta poderia gerar benefícios particulares a pessoas envolvidas na negociação. Essas alegações fazem parte dos questionamentos apresentados pela confederação e não devem ser tratadas como irregularidades comprovadas.

A FIFA, por sua vez, rejeitou as acusações e criticou a postura da entidade europeia. A organização afirmou que as iniciativas da UEFA representam uma tentativa de pressionar sua administração e classificou algumas manifestações como assédio e disseminação de informações incorretas.

Até o momento, a disputa judicial não representa uma condenação de Infantino ou uma comprovação de irregularidade no projeto. O objetivo das iniciativas anunciadas é obter informações que permitam aos críticos avaliar a operação e decidir sobre eventuais medidas posteriores.

O futuro financeiro da FIFA também entrou em discussão

Um dos argumentos utilizados pelos críticos do projeto foi a situação financeira da própria FIFA. A entidade possui reservas bilionárias e obtém grande parte de sua receita com a comercialização dos direitos da Copa do Mundo masculina.

Por isso, a UEFA questionou a necessidade de buscar investidores privados para ampliar os recursos destinados ao desenvolvimento do futebol. Na avaliação dos opositores, seria necessário explicar por que uma organização com receitas e reservas tão expressivas precisaria transferir parte de seus ativos comerciais para uma estrutura com participação externa.

Após o abandono do FFE, a administração de Infantino apresentou uma alternativa para ampliar os investimentos no futebol mundial. Durante a reunião de outubro, a FIFA anunciou uma proposta de distribuição de US$ 6,35 bilhões para o ciclo de 2027 a 2030, por meio de um programa de solidariedade e desenvolvimento.

O plano prevê que cada uma das 211 associações nacionais possa receber até US$ 25 milhões no período, além de ampliar os recursos destinados às confederações e outras estruturas do futebol.

A proposta foi apresentada como uma forma de aproveitar os resultados financeiros positivos do ciclo de 2023 a 2026 e aumentar o apoio às federações. A FIFA informou que os critérios de distribuição, aplicação e fiscalização ainda passariam pelos procedimentos internos de aprovação.

O anúncio também teve importância política. Ao apresentar uma alternativa de financiamento sem a entrada de investidores privados no projeto abandonado, Infantino procurou demonstrar que a entidade poderia ampliar o apoio às associações nacionais utilizando seus próprios recursos.

Infantino enfrenta pressão antes da eleição de 2027

A discussão sobre o FIFA Forward Enterprise acontece em um momento delicado para Gianni Infantino. O presidente da FIFA pretende disputar a reeleição em março de 2027, mas a resistência de dirigentes importantes criou um ambiente político mais complicado para sua continuidade no cargo.

A UEFA, a Confederação Asiática de Futebol (AFC) e a Concacaf estiveram entre as entidades que manifestaram insatisfação com a condução do projeto. Os questionamentos sobre a governança e a concentração de decisões na presidência passaram a fazer parte de uma disputa mais ampla sobre o futuro da administração da FIFA.

Em outubro, a AFC anunciou apoio à candidatura de Infantino para um novo mandato, demonstrando que o presidente ainda conta com aliados importantes fora da Europa. Esse apoio também expõe a dificuldade da oposição em construir uma frente internacional suficientemente ampla para apresentar um candidato competitivo.

Para concorrer à presidência, um candidato precisa atender aos requisitos estabelecidos pela FIFA, incluindo o apoio de pelo menos cinco associações nacionais. O prazo para apresentação das candidaturas está previsto para 18 de novembro de 2026, enquanto a eleição será realizada em março de 2027.

O acesso aos documentos do FFE, portanto, acontece em um período estratégico. Os conselheiros poderão consultar os arquivos antes do prazo de inscrição dos candidatos, mas a restrição de confidencialidade pode limitar o impacto público das informações obtidas.

O resultado dessa disputa pode influenciar a campanha eleitoral e a relação de Infantino com dirigentes de diferentes continentes. Mesmo que o projeto tenha sido definitivamente abandonado, a forma como foi desenvolvido continua sendo utilizada como argumento por aqueles que defendem mudanças na estrutura de poder da FIFA.

O que a liberação dos documentos realmente representa?

A decisão da FIFA é um passo importante porque reconhece a necessidade de permitir que integrantes do Conselho examinem os detalhes de uma proposta que provocou uma das maiores controvérsias administrativas recentes da entidade.

Entretanto, o acesso restrito não resolve automaticamente as dúvidas levantadas pelas federações. Para que a medida represente uma resposta efetiva, será necessário esclarecer quais documentos estarão disponíveis, se o material permitirá reconstruir as negociações e como as informações poderão ser utilizadas pelos conselheiros.

Também permanece a discussão sobre a necessidade de uma análise verdadeiramente independente. A UEFA defende que a investigação não fique limitada à própria FIFA, já que a entidade foi responsável pela elaboração e condução do projeto. A organização europeia considera que uma revisão externa seria necessária para avaliar os procedimentos e eventuais responsabilidades.

O caso mostra que a gestão do futebol mundial está cada vez mais ligada a decisões financeiras de grande escala. A Copa do Mundo não é apenas uma competição esportiva: seus direitos de transmissão, patrocínios e operações comerciais movimentam valores bilionários e influenciam a distribuição de recursos entre as federações.

Por isso, a discussão sobre quem administra esses ativos e como as decisões são tomadas tem impacto direto sobre o futuro da modalidade. A entrada de investidores privados poderia alterar a estrutura comercial da FIFA, enquanto a resistência ao projeto revelou que as associações nacionais não estão dispostas a aceitar mudanças dessa dimensão sem explicações e participação institucional.

O FIFA Forward Enterprise foi abandonado, mas a controvérsia continua. Agora, a consulta aos documentos em Zurique será mais uma etapa de uma disputa que envolve transparência, poder e dinheiro no futebol internacional. O que os conselheiros encontrarão nos arquivos e o quanto essas informações poderão ser divulgadas serão pontos decisivos para determinar se a iniciativa da FIFA será suficiente para recuperar a confiança de seus críticos.

Bruno Santana

Formado em Análise e Desenvolvimento de sistemas , mas apaixonado por futebol e escritos nas horas vagas

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