Uma das principais discussões da Copa do Mundo de 2026 não envolve apenas gols, grandes atuações ou zebras históricas. Dentro e fora dos estádios, outro tema vem chamando a atenção dos torcedores: os acréscimos extremamente longos concedidos pelos árbitros.
Em praticamente todas as partidas do Mundial disputado nos Estados Unidos, Canadá e México, tornou-se comum ver os árbitros sinalizando oito, dez, doze ou até quinze minutos adicionais ao final de cada tempo. Em alguns casos, o tempo total das partidas ultrapassou facilmente os 110 minutos.
Mas afinal, por que os acréscimos estão tão longos na Copa do Mundo de 2026?
A resposta passa diretamente por uma mudança estratégica implementada pela FIFA nos últimos anos e que tem transformado a forma como o futebol é jogado em todo o planeta.
A FIFA quer aumentar o tempo real de bola rolando
Historicamente, embora uma partida tenha duração oficial de 90 minutos, o tempo efetivo de bola em jogo sempre foi muito inferior.
Diversos estudos realizados pela própria FIFA e por empresas especializadas em análise esportiva mostraram que, em média, uma partida de futebol apresentava apenas entre 50 e 60 minutos de bola rolando.
Isso significa que cerca de um terço do tempo total era consumido por:
- substituições;
- atendimento médico;
- comemorações de gols;
- revisões do VAR;
- reposições demoradas;
- jogadores simulando lesões;
- cera proposital para administrar resultados.
Para a FIFA, esse cenário prejudicava o espetáculo.
A entidade passou a defender que os torcedores pagam para assistir futebol jogado, e não para ver interrupções constantes.
A mudança começou na Copa do Mundo de 2022
Embora tenha ganhado ainda mais destaque em 2026, a política dos acréscimos longos começou oficialmente na Copa do Mundo do Catar, em 2022.
Naquele Mundial, diversas partidas ultrapassaram os 100 minutos de duração.
O caso mais emblemático aconteceu no confronto entre Inglaterra e Irã, que teve impressionantes 27 minutos de acréscimos somando primeiro e segundo tempo.
Na época, o então presidente do Comitê de Arbitragem da FIFA, Pierluigi Collina, explicou que os árbitros haviam recebido orientação clara para contabilizar rigorosamente cada paralisação.
Segundo Collina, a ideia era simples:
"Queremos compensar todo o tempo perdido."
Desde então, o procedimento passou a ser adotado em competições internacionais organizadas pela entidade.
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O que é contabilizado nos acréscimos?
Ao contrário do que muitos imaginam, os acréscimos não são definidos apenas pelo árbitro principal.
Existe atualmente um trabalho coordenado entre:
- árbitro principal;
- quarto árbitro;
- equipe do VAR;
- sistema tecnológico da FIFA.
Praticamente todas as interrupções relevantes são registradas.
Entre elas:
1. Comemoração dos gols
Cada comemoração pode consumir entre 60 segundos e dois minutos.
Em jogos com muitos gols, o impacto é significativo.
Como a Copa do Mundo de 2026 vem apresentando média elevada de gols por partida, esse fator tem contribuído diretamente para os longos acréscimos.
2. Revisões do VAR
As checagens e revisões em vídeo também são integralmente adicionadas ao tempo final.
Dependendo da complexidade do lance, uma análise pode durar mais de três minutos.
3. Substituições
Atualmente, cada substituição representa tempo perdido.
Como as seleções podem realizar até cinco trocas durante os 90 minutos, o impacto acumulado torna-se relevante.
4. Atendimento médico
Paralisações por lesões são outro fator importante.
Jogadores atendidos dentro de campo, entradas de maca e avaliações médicas são contabilizadas.
5. Perda deliberada de tempo
A famosa "cera" também entrou definitivamente na mira da FIFA.
Goleiros demorando excessivamente para cobrar tiros de meta, jogadores retardando reposições laterais e atletas simulando contusões passaram a ser monitorados com maior rigor.
O calor extremo também influencia
A Copa de 2026 está sendo disputada durante o verão norte-americano.
Em diversas cidades-sede, as temperaturas ultrapassaram facilmente os 35°C.
Por isso, muitas partidas contam com as chamadas pausas de hidratação.
Essas interrupções, normalmente realizadas por volta dos 30 minutos de cada etapa, também são acrescentadas ao tempo final.
Em alguns confrontos, apenas as pausas para hidratação já adicionaram entre três e quatro minutos extras.
Quantos minutos extras já foram registrados na Copa de 2026?
Embora os números variem rodada a rodada, diversas partidas do torneio superaram facilmente os dez minutos adicionais.
Exemplos recentes chamaram a atenção:
- Brasil x Haiti teve longos acréscimos em ambos os tempos;
- Holanda x Suécia ultrapassou a marca dos 100 minutos totais;
- Espanha x Cabo Verde contou com diversas paralisações devido ao calor e revisões do VAR.
Esse padrão tornou-se praticamente regra no Mundial.
Hoje, partidas com apenas três ou quatro minutos adicionais passaram a ser exceção.
O impacto tático dos acréscimos
Os longos acréscimos estão alterando profundamente o planejamento das equipes.
Treinadores já admitem que uma partida moderna pode durar facilmente entre 100 e 110 minutos.
Isso gera mudanças importantes.
Preparação física
As comissões técnicas passaram a desenvolver trabalhos específicos visando maior resistência.
Não basta mais suportar apenas os tradicionais 90 minutos.
Agora, muitos jogadores precisam manter intensidade máxima durante períodos próximos de duas horas.
Gestão do elenco
As cinco substituições ganharam ainda mais importância.
Treinadores utilizam atletas descansados para explorar justamente os minutos finais, quando o desgaste físico se torna extremo.
Estratégias defensivas
Equipes que costumavam "administrar" vantagens mínimas passaram a encontrar maiores dificuldades.
Quanto mais tempo adicional, maiores são as chances de sofrer pressão.
Mais gols nos minutos finais
Outro efeito direto dos acréscimos extensos é o aumento no número de gols marcados após os 90 minutos.
Nas últimas competições organizadas pela FIFA, observou-se crescimento significativo de gols entre os minutos 90 e 105.
Esse cenário mantém as partidas abertas por mais tempo e aumenta a imprevisibilidade.
Diversos confrontos da Copa de 2026 tiveram resultados alterados justamente nos acréscimos.
Para os torcedores, isso representa mais emoção.
Para os treinadores, mais sofrimento.
A medida divide opiniões
Nem todos aprovam a estratégia adotada pela FIFA.
Argumentos favoráveis
Os defensores da medida afirmam que:
- reduz a cera;
- valoriza o espetáculo;
- aumenta o tempo efetivo;
- gera partidas mais dinâmicas;
- recompensa equipes que buscam jogar futebol.
Além disso, muitos torcedores consideram injusto que um jogo de 90 minutos apresente apenas 55 minutos de bola rolando.
Argumentos contrários
Já os críticos apontam:
- maior desgaste físico;
- risco elevado de lesões;
- excesso de tempo total;
- dificuldade de adaptação dos atletas;
- impacto no calendário internacional.
Alguns treinadores chegaram a sugerir mudanças mais radicais, como a adoção do cronômetro parado, semelhante ao basquete.
A FIFA pretende manter a regra?
Tudo indica que sim.
A entidade considera a política um sucesso.
Pierluigi Collina já declarou em diversas oportunidades que a intenção é preservar o máximo possível do tempo efetivo de jogo.
A tendência é que as futuras competições internacionais continuem utilizando esse modelo.
Ligas nacionais e continentais também vêm adotando procedimentos semelhantes.
Hoje, campeonatos como a Premier League, La Liga e competições da Conmebol já apresentam acréscimos maiores do que os observados há poucos anos.
O futebol está mudando
A Copa do Mundo de 2026 deixa claro que o futebol moderno está passando por uma transformação importante.
Os tradicionais 90 minutos continuam existindo no regulamento, mas, na prática, jogadores, técnicos e torcedores já convivem com partidas muito mais longas.
Para a FIFA, a mensagem é clara: quanto mais tempo de bola rolando, melhor será o espetáculo.
Por isso, os torcedores provavelmente precisarão se acostumar a ver placas indicando oito, dez ou até quinze minutos adicionais com cada vez mais frequência.
Os acréscimos longos vieram para ficar e já representam uma das principais mudanças do futebol mundial na última década.
