O combate ao racismo no futebol brasileiro e mundial vive um momento de contradição. De um lado, temos legislações modernas, como a Lei Geral do Esporte e os novos protocolos da FIFA, que preveem até a perda de pontos e exclusão de campeonatos. De outro, vemos tribunais desportivos que, muitas vezes, optam por punições brandas, como multas financeiras que não abalam o orçamento dos grandes clubes, ou o fechamento parcial de setores do estádio. O "porquê" de as leis não serem mais duras na prática envolve uma mistura de burocracia jurídica, medo de "manchar" os resultados de campo e uma resistência cultural profunda dentro das instituições desportivas.
O Novo Arsenal Jurídico de 2026
Diferente do que acontecia há alguns anos, hoje não faltam instrumentos legais para punir o racismo. O problema mudou da falta de regras para a falta de coragem na aplicação.
Protocolo de Combate ao Racismo (Lei 14.597): Instituído recentemente, este protocolo obriga a interrupção imediata da partida em caso de manifestação racista reconhecida. Se o ato persistir, o jogo pode ser encerrado com a derrota automática do time responsável.
A Punição Administrativa da CBF: Desde 2023, o regulamento das competições brasileiras prevê que os clubes podem perder pontos administrativamente por atos racistas de seus torcedores ou funcionários.
Individualização da Pena: Leis estaduais sancionadas no início de 2026 (como em Santa Catarina e Paraíba) focam em expulsar o torcedor racista imediatamente e aplicar multas pesadas (chegando a R$ 50 mil) diretamente ao infrator, além de multas aos clubes que forem coniventes.
Por que os Clubes não são punidos severamente?
Se as leis permitem tirar pontos e rebaixar times, por que isso quase nunca acontece? Existem três travas principais:
1. A Subjetividade dos Tribunais (STJD)
As leis esportivas dão aos juízes uma "margem de interpretação". Muitos auditores acreditam que punir o clube com perda de pontos por causa de "meia dúzia de torcedores" fere a integridade da competição. Eles preferem aplicar multas, sob a justificativa de que o clube não pode controlar o pensamento de cada indivíduo na arquibancada.
2. O Medo da Inversão de Resultados
Há uma resistência histórica no futebol em deixar que o "tribunal" mude o que foi decidido no "gramado". Teme-se que torcedores infiltrados possam usar ofensas racistas propositalmente para prejudicar um time rival, tirando-lhe pontos. Em 2026, embora a tecnologia de câmeras ajude a evitar isso, esse argumento ainda é usado para evitar punições desportivas pesadas.
3. A Responsabilidade Social vs. Financeira
Os clubes são instituições poderosas. Uma punição de perda de pontos pode significar um rebaixamento, o que gera prejuízos de centenas de milhões de reais. A justiça desportiva, muitas vezes composta por pessoas ligadas aos próprios clubes, acaba sendo conservadora para evitar o colapso econômico de uma agremiação.
Tabela: Evolução das Punições por Racismo
| Período | Punição Comum | Efetividade | Percepção Pública |
| Até 2022 | Multas pequenas e "notas de repúdio" | Quase zero | Impunidade total |
| 2023 - 2025 | Perda de mando e multas maiores | Baixa | Avanço simbólico |
| 2026 (Atual) | Interrupção de jogos e banimento de torcedores | Média | Cobrança por perda de pontos |
O Fator Vinícius Júnior e a Pressão Internacional
A luta do atacante Vinícius Júnior em 2025 e 2026 mudou o patamar do debate. A FIFA, pressionada pela repercussão global, estabeleceu que até o fim de 2026 todos os países membros devem adotar penas que incluam a derrota por WO em casos de racismo sistêmico.
No Brasil, o cenário de 2026 mostra que os casos de racismo voltaram a oscilar para cima após um período de queda, o que prova que apenas multas não são pedagógicas. O torcedor precisa sentir que o ato dele prejudica diretamente o seu clube do coração na tabela para que haja uma mudança de comportamento coletivo.
O Desafio é a Aplicação, não o Texto
As leis de 2026 são as mais duras da história, mas elas ainda dormem nas gavetas dos tribunais. O futebol não é uma bolha isolada da sociedade; ele reflete o racismo estrutural. Enquanto os clubes forem vistos apenas como "vítimas do comportamento de seus torcedores" e não como responsáveis diretos pela educação e fiscalização do seu ambiente, as punições continuarão sendo paliativas.
A punição severa (perda de pontos e exclusão) é o único remédio capaz de forçar os clubes a investirem seriamente em biometria facial, expulsão de sócios racistas e campanhas educativas permanentes. Em 2026, a pergunta não é mais "qual é a lei?", mas sim "quem terá coragem de aplicá-la primeiro?".

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