No dia 29 de maio de 1991, o Estádio San Nicola, em Bari, na Itália, tornou-se o palco de um dos eventos mais simbólicos da história do esporte mundial. Enquanto as fronteiras da Europa Oriental eram redesenhadas por conflitos étnicos e políticos, um grupo de jovens talentos sob a bandeira da Iugoslávia realizava o impossível. O Estrela Vermelha de Belgrado (Crvena Zvezda) sagrava-se campeão da Taça dos Clubes Campeões Europeus (a atual UEFA Champions League), um feito inédito para o país e que, até hoje, permanece como o último suspiro de glória de uma nação que deixaria de existir pouco tempo depois.
O Nascimento de um Esquadrão Imortal
A jornada para o título não começou em 1990, mas sim anos antes, com um planejamento meticuloso da diretoria do clube, liderada por Dragan Džajić. O objetivo era claro: reunir os melhores talentos de todas as repúblicas iugoslavas para criar um time capaz de desafiar a hegemonia de potências como o AC Milan e o Real Madrid.
Diferente de outros clubes europeus que compravam estrelas consagradas, o Estrela Vermelha garimpou diamantes brutos. Do Dinamo Zagreb, trouxeram o cerebral Robert Prosinečki; do Budućnost Podgorica, o mágico Dejan Savićević; do Vardar, o goleador implacável Darko Pančev. Eles se juntaram a pratas da casa e jovens talentos como o lateral-esquerdo e batedor de faltas Siniša Mihajlović, o polivalente Vladimir Jugović e o goleiro e capitão Stevan Stojanović.
O que tornava esse time especial era a mistura explosiva de técnica refinada e uma mentalidade de "futebol total" adaptada aos Bálcãs. Eles jogavam com uma arrogância positiva, cientes de que podiam vencer qualquer adversário através do controle de posse e transições rápidas.
O Caminho Sangrento e Glorioso
A temporada 1990/91 começou com o Estrela Vermelha atropelando o Grasshopper da Suíça. Na fase seguinte, enfrentaram o Rangers, da Escócia, e aplicaram um sonoro 3 X 0 em Belgrado, com uma atuação de Prosinečki que é lembrada até hoje como uma das maiores exibições individuais do estádio Marakana.
Nas quartas de final, o adversário foi o Dynamo Dresden. O jogo de volta, na Alemanha Oriental, foi marcado por distúrbios na torcida alemã, mas dentro de campo o domínio iugoslavo era absoluto. A vitória por 2 X 1 (interrompida pela violência e depois declarada 3 X 0 pela UEFA) selou a passagem para a semifinal contra o gigante Bayern de Munique.
O confronto contra os bávaros foi a verdadeira "final antecipada". No jogo de ida, em Munique, o Estrela Vermelha chocou o mundo ao vencer por 2 X 1, com gols de Pančev e Savićević. No jogo de volta, em Belgrado, um empate em 2 X 2 — garantido por um gol contra dramático de Augenthaler no último minuto — colocou os iugoslavos na grande final. A atmosfera no Marakana naquela noite, com 80 mil pessoas, é descrita por historiadores como o ápice do fervor nacionalista e esportivo da região.
A Final de Bari: O Sacrifício do Esteticismo
Ao chegar à final contra o Olympique de Marselha, o Estrela Vermelha era o favorito dos amantes do futebol bonito. O time francês, financiado pelo polêmico Bernard Tapie, contava com astros como Jean-Pierre Papin, Abedi Pelé e o inglês Chris Waddle.
O técnico iugoslavo, Ljupko Petrović, tomou uma decisão que surpreendeu a todos: ele abdicou do ataque. Ciente de que o Marselha exploraria os espaços deixados pelos seus meias ofensivos, Petrović ordenou que o time jogasse na defesa, buscando o empate por 0 a 0 para decidir nos pênaltis.
"Se jogássemos como vínhamos jogando, poderíamos dar espaços ao Marselha e perder. Eu disse aos jogadores: 'Se vocês querem ser campeões, temos que fazer o que eu mandar'", recordou Petrović anos mais tarde.
Foram 120 minutos de um jogo tenso, amarrado e pouco vistoso, mas taticamente impecável. Nos pênaltis, a precisão iugoslava foi cirúrgica. Prosinečki, Binic, Belodedici e Mihajlović converteram suas cobranças. O goleiro Stojanović defendeu o chute de Manuel Amoros. Na última cobrança, Darko Pančev caminhou calmamente até a marca da cal e chutou no canto direito. O Estrela Vermelha era o dono da Europa.
O Contexto Político: O Título no Olho do Furacão
Enquanto os jogadores levantavam a taça, a Iugoslávia estava à beira do abismo. O título de 1991 ocorreu poucos meses antes do início formal das Guerras de Independência da Croácia e da Eslovênia. O elenco do Estrela Vermelha era um microcosmo da Iugoslávia: sérvios, croatas, montenegrinos e macedônios abraçados no pódio.
Infelizmente, a política superou o esporte. Pouco depois da conquista, o país mergulhou em uma guerra civil sangrenta. O time fantástico foi rapidamente desmantelado pela necessidade financeira e pela impossibilidade de manter jogadores de diferentes etnias em meio ao conflito.
Prosinečki foi para o Real Madrid, Savićević para o AC Milan (onde ganharia outra Champions em 1994), e Pančev para a Inter de Milão. Devido às sanções da ONU impostas à República Federal da Iugoslávia, o Estrela Vermelha foi proibido de jogar suas partidas em casa na temporada seguinte, tendo que atuar em cidades como Budapeste e Sófia, o que impediu qualquer chance de bicampeonato.
Legado: A Eternidade em Belgrado
Hoje, o título de 1991 é visto com uma mistura de orgulho e melancolia. Representa o momento em que o futebol do Leste Europeu provou ser o melhor do mundo, superando os orçamentos milionários das ligas ricas do Ocidente.
O Estrela Vermelha de 91 não foi apenas um time de futebol; foi o último grande projeto de uma nação multicultural. O museu do clube em Belgrado guarda a taça original, um lembrete permanente de que, por um breve momento, os Bálcãs foram o centro do universo futebolístico.
Principais Jogadores da Campanha:
Stevan Stojanović: O paredão e capitão.
Robert Prosinečki: O maestro croata com visão de jogo inigualável.
Dejan Savićević: O "Gênio" montenegrino, imparável no drible.
Darko Pančev: A "Cobra", um dos maiores artilheiros da história da chuteira de ouro.
Siniša Mihajlović: A canhota atômica que aterrorizava goleiros.
Ficha Técnica da Final (1990/91)
| Categoria | Detalhes |
| Placar | Estrela Vermelha $0 (5) \times (3) 0$ O. Marselha |
| Data | 29 de maio de 1991 |
| Local | Estádio San Nicola, Bari (Itália) |
| Destaques | Prosinečki, Savićević, Pančev e Stojanović |

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