A Copa do Mundo de 2026 foi planejada para ser uma celebração da diversidade, reunindo 48 seleções de diferentes continentes. No entanto, além dos grandes jogos e das atuações históricas, o torneio também vem sendo marcado por uma sequência de episódios de racismo e discriminação que colocaram a FIFA novamente no centro das críticas.
Nas últimas semanas, jogadores, torcedores, comentaristas e até criadores de conteúdo foram alvo de ataques racistas durante a competição. A repetição desses episódios levanta uma pergunta inevitável: a FIFA realmente está conseguindo combater o racismo ou continua apenas reagindo quando os casos ganham repercussão mundial?
Os casos aumentaram durante a Copa
O Mundial de 2026 acumulou diversos episódios de repercussão internacional.
Entre eles estão:
- ataques racistas contra jogadores negros nas redes sociais;
- ofensas direcionadas ao atacante Kylian Mbappé por uma senadora paraguaia;
- comentários discriminatórios feitos por analistas esportivos;
- denúncias de abuso racista contra o streamer IShowSpeed durante um jogo da Copa;
- insultos sofridos por atletas após partidas decisivas.
Embora cada caso tenha ocorrido em contextos diferentes, todos reforçam que o racismo continua presente dentro e fora dos estádios.
Os números preocupam
Os próprios dados divulgados pela FIFA mostram o tamanho do problema.
Durante a fase de grupos, a entidade registrou:
- aumento de 13 vezes nas mensagens abusivas em relação à Copa de 2022;
- cerca de 89 mil publicações ofensivas identificadas;
- 11% dessas mensagens continham conteúdo racista;
- mais de 181 mil comentários foram ocultados automaticamente pelos sistemas de proteção da entidade.
Os números mostram que o problema está longe de ser isolado.
O caso Mbappé
Um dos episódios mais comentados envolveu Kylian Mbappé.
Após a classificação da França, o atacante foi alvo de declarações racistas feitas pela senadora paraguaia Celeste Amarilla.
A repercussão foi imediata.
A Federação Francesa denunciou o caso.
O presidente francês, Emmanuel Macron, manifestou apoio ao jogador.
A Justiça francesa abriu investigação.
Mesmo assim, o episódio mostrou como figuras públicas continuam utilizando discursos discriminatórios contra atletas.
IShowSpeed também virou vítima
Outro caso ocorreu fora das quatro linhas.
Durante Argentina x Cabo Verde, o influenciador americano IShowSpeed relatou ter sido alvo de insultos racistas vindos de um torcedor nas arquibancadas.
Após a divulgação das imagens, a FIFA abriu investigação oficial e afirmou que esse tipo de comportamento não será tolerado durante o torneio.
Argentino fazendo gesto racista "macaco" para o influenciador americano IShowSpeed, o Speed, após a classificação da Seleção Argentina para quartas de final da Copa.
— LIBERTA DEPRE (@liberta___depre) July 7, 2026
📽️Speed/live pic.twitter.com/xaDnhJ4WQi
O que a FIFA fez?
Seria incorreto afirmar que a FIFA permaneceu completamente inativa.
Entre as medidas adotadas pela entidade estão:
- abertura de investigações sobre denúncias de racismo;
- implementação do gesto do "X", que permite a jogadores denunciarem discriminação durante as partidas;
- ampliação do sistema de monitoramento das redes sociais;
- uso de inteligência artificial para ocultar mensagens ofensivas;
- encaminhamento de casos graves às autoridades policiais;
- campanhas oficiais com o slogan "No Racism".
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Mas por que as críticas continuam?
Porque muitos especialistas entendem que essas ações ainda são insuficientes.
Grande parte das medidas ocorre depois que os episódios já aconteceram.
Na prática:
- o jogador já foi ofendido;
- o conteúdo já viralizou;
- o dano psicológico já ocorreu.
Para muitos atletas e entidades de defesa dos direitos humanos, investigar depois não resolve o problema principal.
A punição ainda é rara
Outro ponto frequentemente criticado é a dificuldade de identificar e punir rapidamente os responsáveis.
Em muitos casos:
- os autores permanecem anônimos;
- processos demoram meses;
- sanções esportivas quase nunca atingem federações ou torcedores de forma exemplar.
Esse cenário gera sensação de impunidade.
O gesto do "X"
Uma das novidades da Copa de 2026 foi o gesto oficial contra o racismo.
Quando um jogador cruza os braços formando um "X", o árbitro pode iniciar imediatamente o protocolo antidiscriminação.
O procedimento prevê:
- interrupção da partida;
- anúncio no estádio;
- suspensão temporária;
- encerramento definitivo do jogo em situações extremas.
É uma ferramenta importante, mas ainda pouco utilizada.
Redes sociais continuam sendo o maior problema
Hoje, boa parte dos ataques ocorre fora dos estádios.
Após derrotas ou eliminações, atletas recebem milhares de mensagens ofensivas.
A FIFA ampliou o uso de inteligência artificial para bloquear automaticamente comentários racistas antes que eles sejam visualizados pelos jogadores.
Mesmo assim, o volume continua crescendo.
A responsabilidade não é só da FIFA
Também é importante reconhecer que o combate ao racismo não depende exclusivamente da entidade.
Clubes, federações nacionais, governos, plataformas digitais e autoridades policiais têm papel fundamental.
Sem punições rápidas e cooperação internacional, dificilmente o problema será eliminado.
A crítica que fica
A FIFA demonstra hoje muito mais preocupação do que em torneios anteriores.
Investiga casos.
Divulga campanhas.
Cria protocolos.
Utiliza tecnologia.
Essas iniciativas representam avanços.
Ao mesmo tempo, a sequência de episódios nesta Copa evidencia que os resultados ainda estão aquém do esperado. Se, em um mesmo torneio, continuam surgindo novos casos de discriminação, é compreensível que jogadores, torcedores e especialistas questionem se as medidas atuais são suficientes para prevenir o problema, e não apenas reagir a ele.
A Copa do Mundo de 2026 ficará marcada por grandes partidas e atuações históricas, mas também por uma preocupante sucessão de episódios de racismo e discriminação. A FIFA adotou novas ferramentas, como o gesto do "X", ampliou o monitoramento das redes sociais e abriu investigações sobre diversos casos. Ainda assim, os números de abuso cresceram significativamente em relação ao Mundial anterior, mostrando que o desafio permanece enorme.
O maior desafio para a entidade agora não é apenas condenar publicamente esses episódios, mas demonstrar que suas ações conseguem reduzir efetivamente a discriminação no futebol. Campanhas de conscientização são importantes, mas o sucesso da luta contra o racismo também depende de punições consistentes, aplicação uniforme das regras e cooperação entre organizadores, autoridades e plataformas digitais para proteger atletas e torcedores.
